A POÉTICA CARNAVALIZADA DE AUGUSTO DOS ANJOS

CONVERSA FIADA NOS CEM ANOS DE AUGUSTO ENCANTADO
Montgômery VASCONCELOS

Recepção e fortuna crítica da obra de Augusto dos Anjos
1.1. Recepção da Crítica Literária:
O Eu, única obra poética de Augusto dos Anjos, publicado em 1912, alcança hoje mais de cem edições, sem contar a enorme produção acadêmica a seu respeito: monografias, dissertações, teses, artigos em jornais e revistas, teatro, cinema, disco CD, páginas eletrônicas (home pages) e portais eletrônicos (sites) abertos à consulta, na rede eletrônica internacional (internet). Contudo, houve antes outro Eu do poeta português Alfredo Pimenta (1904: 7-167) na mesma filosofia e tema.
É extensa a Fortuna Crítica de Augusto dos Anjos que Gemy Cândido (1981: 9-158) levantou numa introdução polêmica acompanhada das 1ª e 2ª partes, focando comentários minuciosos em cima de isoladas considerações filosóficas, literárias e estéticas, quando por meio de gesto imprudente vem atirando farpas de descontentamentos aos quatro cantos da comunidade científica brasileira. Ambas são importantes porque se instauram em questões relativas à poesia e à prosa de Augusto dos Anjos, hoje reunidas numa edição da Obra Completa da Editora Nova Aguilar (vinte e dois ensaístas) de 1994, introdução de Alexei Bueno, “Augusto dos Anjos: origens de uma poética”, de que tratarei mais diretamente, no decorrer desse estudo. Mas antes, dentre tantas conjecturas e refutações de Gemy Cândido (1981: 10-23) exigem “reflexão” estas de sua introdução:
“A filosofia de Augusto dos Anjos, de fato, não é uma filosofia que aceita um sistema explicativo do mundo, e sim uma filosofia do desespero, da dúvida e da negação. Para ele a filosofia não visa a coisa alguma, isto é, não tem finalidade objetiva, a não ser a pura reflexão especulativa.// (…) Poeta que não tinha pressa, que passou a vida toda aperfeiçoando o seu instrumental, Augusto dos Anjos era um orgulhoso de sua condição social e de sua pobreza, um homem que não teve reações hostis contra o meio que o marginalizou, consciente de seu passado de aristocrata descendente de senhores de engenho e de bacharéis da várzea do Paraíba.”
Quanto à edição da Aguilar, é um caso inusitado em que há mais desafio por parte da casa publicadora do que mesmo da crítica que se debruça sobre a obra do poeta de “Versos Carnavalescos”, como já observei (1996: 229-231) em meu livro A Poética Carnavalizada de Augusto dos Anjos encontrando-se ainda esses mesmos “Versos Carnavalescos” no capítulo “Versos de Circunstância” , na organização da poética augusteana que Alexei Bueno (1994: 567-9) preparou para a editora Nova Aguilar.
Prossegue-se um equívoco crítico desde a publicação do Eu, em 1912. Na introdução à obra do “Baudelaire paraibano”, insiste Alexei Bueno em reafirmar a filiação ao Simbolismo de Augusto dos Anjos, quando o próprio poeta negou, em vida, pertencer a quaisquer escolas, por se considerar uma “superfetação poética” e/ou também “um specimen de bastardia literária”, conforme afirma em sua “Crônica Paudarquense”, composta em 1905, no Engenho Pau d’Arco, propriedade de sua família, e publicada no jornal O Comércio, a 7-11-1905.
O argumento de Alexei Bueno não convence: aponta o distanciamento de compreensão da poesia de Augusto, a partir das próprias pistas do poeta na passagem do século XIX ao XX. Diz Alexei Bueno (1994: 27):
“De Poe até Baudelaire, depois através de todos os ‘decadentes’ (….) mais uma prova da filiação simbolista do expressionismo de Augusto dos Anjos”.
Alexei Bueno lança mão de passagens isoladas, destacadas, duma crítica carente de revisão, pois tanto os críticos do passado quanto Alexei Bueno desconsideram o fato mais relevante: a produção poética augusteana, também, se nega à filiação a quaisquer escolas e movimentos. E mais adiante, Alexei Bueno (1994: 27) ainda se equivoca ao afirmar:
“A união entre essa liberdade de tratar da maneira mais crua o espetáculo da miséria humana com a adesão a um sistema científico totalizador e ateu, sem haver no realizador de tal conjunção qualquer possibilidade de apaziguamento subjetivo dentro dela, eis, na nossa opinião, a origem primordial da poética do Eu.” (1994: 27)
Ele se equivoca porque o próprio Augusto dos Anjos não comunga com tal opinião em suas Crônicas Paudarquenses em Prosa e/ou Prosa Dispersa que o mesmo Alexei Bueno organizou para a edição da Nova Aguilar.
Em suma, é o que me revela todo o conjunto de sua poesia e, em especial, este próprio trecho de sua prosa crítica em que resume suas idéias e sua crença na vida da poesia, inclusive criticando radicalmente o Simbolismo ao tornar didática sua poesia por meio de “meros floreios aliterativos” e “vazio das idéias”. Augusto dos Anjos é incisivo quando faz essa crítica à luz de Teócrito, um gênio clássico da Grécia, a saber:
“Na história das literaturas, esses fatores de dissolução são, todavia, comuníssimos.// Conforme havemos notícia perfunctória, na Índia, a literatura sânscrita, depois da fase clássica, experimentou a irrupção de igual decadência.// A Grécia, é sabido, palmilhou também rotina paralela.// Ainda assim, quando o gênio literário, precipitando-se, extenuado, no vazio das idéias, tornou a poesia simplesmente didática, enchendo-a de meros floreios aliterativos, houve um espírito inimitável que soube reviver as fontes pretéritas, em as suas bases características de graça e de singeleza.// Esse espírito foi Teócrito, como ninguém ignora.// Explorando com maestria este assunto, afirma o distinto escritor João Ribeiro: ‘Teócrito foi o último lampejo do gênio helênico. Com ele morreu a poesia grega’.// Em todo o caso, há de convir nisto o bom senso do Sr. Mendes Freire. Sebastião de Campos não é Teócrito, nem tampouco a poesia brasileira está para morrer.// Virão em breve novos subsídios de reconstrução, aparelhos propulsores de interferência evolutiva, porque o progresso não enxerga montanhas de obstáculo e a poesia não é qualquer autômato que estacionasse, aí aos gritos de sábio nenhum, com os poemas da antigüidade.// O homem é a criatura e não o criador dos acontecimentos, já o disse abalisado pensador.// Esforcemo-nos destarte por adquirir, sem esses ramúsculos podres, a perfectibilidade excelsa, e deixemos em paz os mortos.// Atenda-nos o Sr. Mendes Freire.// Não é lícito comparar o romantismo, cheio de úlceras, do ‘Nuvens Errantes’, com o subjetivismo puro de Álvares de Azevedo ou o lirismo específico de Fagundes Varela.//”. (Anjos,1994: 598-9)
Tal equívoco, ainda, se percebe pelo fato, já mencionado, do próprio poeta Augusto dos Anjos afirmar ser apenas uma “superfetação poética” ou quando muito, também, “um specimen de bastardia literária”. Inclusive, defendeu esta sua independência estética e liberdade ideológica, poética e profissional em seu soneto “Vencedor” que compõe em 1902. Trata-se de soneto composto em versos decassílabos, característica mais preponderante na poesia augustiana, porque o poeta assume caráter de autonomia em relação a qualquer domínio:
Toma as espadas rutilas, guerreiro,
E á rutilancia das espadas, toma
A adaga de aço, o gladio de aço, e doma
Meu coração — extranho carniceiro!
Não pódes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gládiador de Roma.
E qual mais prompto, e qual mais presto assoma,
Nenhum poude domar o prisioneiro.
Meu coração triumphava nas arenas.
Veio depois um domador de hyenas
E outro mais, e, por fim, veio um athleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não poude domal-o emfim ninguem,
Que ninguem doma um coração de poeta!
Pau d’Arco ― 1902”
(Anjos, 1912: 102).
Este soneto é a revelação duma espécie de manifestação dissociada de quaisquer possibilidades de filiação, portanto, invencível ante as amarras e as doutrinas duma escola literária, simpático à liberdade, à independência e às experiências novas.
No ensaio “Augusto dos Anjos: origens de uma poética”, Alexei Bueno (1994: 21-34) faz uma introdução descolada da obra completa do poeta de “A Borboleta”, soneto que se lê à luz da “polifonia” e do “dialogismo” de Bakhtin, (1981: 87-155) e em meu livro A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos (1996: 7-226), num só contraponto.
Todavia, um soneto que se lê à luz dessa polifonia e desse dialogismo na literatura é aquele em que há uma transposição da linguagem da realidade dos festejos e das manifestações populares para a linguagem literária. Ressalto, portanto, que Alexei Bueno no ensaio supra faz uma leitura convencional e tradicional da posição literária de Augusto.
A poesia de Augusto dos Anjos, com destaque no repertório da Literatura Brasileira na passagem do século XX, abre-se para horizontes novos. Talvez por esta razão, a poética augusteana tenha gerado polêmica e a crítica se embaraçe na tentativa frustrada de situá-la numa escola literária ou num estilo de época.
Augusto dos Anjos pode ser tomado como um poeta órfão. Parece estar presente em muitas frentes, senão ausente delas em princípios, em suas linhas, normas e/ou regras. Posto que foi o próprio poeta Augusto quem me apontou a pista numa de suas colaborações de crítica sobre a sua própria poética completamente avessa tanto ao Romantismo quanto às escolas ditas modernas, que proliferavam, como bem mostra no que escreve, ainda em vida, para o jornal O Comércio, 7-11-1905, em sua “Crônica Paudarquense”:
“O que nós queremos é evoluir, galgar pináculos mais elevados, aperfeiçoar-nos em suma, e não transmitir fluidos ineficazes de vitalidade momentânea a arcabouços obsoletos.//É óbvio que atravessamos uma fase intercalar de esgotamento, resultante do próprio romantismo, que, — fulgurando longo tempo no ciclo vitorioso dos seus prógonos, — não teve, entretanto, desde as hipérboles imitativas do gongorismo hugoano, a força incrementadora de assumir o mesmo realce em nossos dias, corrompendo-se desastradamente numa argamassa abstrusa a que a resignação do século confere, por exagero eufêmico, o nome bonito de escolas modernas. (…) Somos também um specimen de bastardia literária, ou para melhormente nos exprimirmos, de superfetação poética.” (Anjos, 1994: 598-600. Grifos nossos).
Destarte, a poética de Augusto dos Anjos, também, revela recursos estranhos a seu tempo, no que se refere a uma poesia com modo narrativo temático-composicional investido de descrições da natureza. Referência esta que se apresenta por meio duma linguagem expressa em formas estranhas e conteúdos inusitados, instaurando assim uma comunicação cheia de ambigüidades.
Porém, a proposta registrada em seus versos é de simplicidade acessível a todas as leituras. Portanto, o ensaio introdutório de Bueno apresenta uma análise equivocada da poética augusteana, na qual quanto mais tenta nos esclarecer mais nos confunde. Nem se aproximou de uma leitura mais colada ao projeto coletivo da obra de Augusto dos Anjos, tão evidente: a dignidade humana. Ao contrário de Alexei Bueno, Hermes Fontes faz esta aproximação junto às descobertas de “edótica” expressa em sua “Crônica Literária”. Trata-se dum exercício de leitura, em relação ao qual guardarei as devidas proporções, até quanto à distância temporal que separa esses dois críticos: Alexei Bueno (1994) e Hermes Fontes (1912).
Já no ano em que foi publicado o Eu, 1912, Hermes Fontes redige um ensaio pioneiro, e, de edótica, destacando a poesia de Augusto dos Anjos no cenário do universo acomodado da Literatura Brasileira de então.
Passo agora à hermenêutica proposta por Hermes Fontes com vistas a compreender a poética augusteana e a complexidade de seu autor, que resulta, também, na “relação entre o discurso (…) e aquilo que os leitores consideram verdadeiro.” (Todorov, 1993: 29). Trata-se pois de algo “à opinião comum” interagindo com o “verosímil” numa espécie de função e/ou problematização crítica, também, nessa integração triádica, criador-criatura-criação, conforme nos ensina ainda em seu A Poética Tzvetan Todorov (1993: 7-104) mas já por sua vez à luz de Aristóteles.
A 16 de julho de 1912, Hermes Fontes publica “Crônica Literária” no Diário de Notícias do Rio de Janeiro. Assinala que a força e o arrojo do Eu de Augusto dos Anjos chegam a sobrar, embora muitas outras coisas lhe desagradem, como a “monotonia das idéias e de módulos”. Mas, por outro lado, ainda, reconhece o brilhantismo artístico do poeta de “O último número” quando por meio dos três trechos que se seguem Hermes Fontes (1994: 49) nos diz:
“Sem negar o artista que é Augusto dos Anjos, e artista coerente nos seus processos e no seu programa, cumpre-nos elucidar esse modo de ser das nossas divergências, para melhor acentuar o fervor dos nossos aplausos.”
Esta consideração aproxima-se do projeto estético-ideológico e coletivo de Augusto dos Anjos, que vislumbra um mundo com eqüidade geral sem perder de vista o perfil individual rumando para o universal.
Prossegue com mais veemência em seu depoimento crítico:
“À primeira leitura desse livro brilhante, tem-se logo a impressão de um talento formidável, de uma cultura polimórfica e, sobretudo, de uma grande honestidade literária, de fazer coisa própria, coisa sua, pessoal, individualista.”
O que comprova o caráter e o propósito do projeto do poeta é a independência. A ponto de publicar o livro de poesias Eu, em primeira edição, por meio de empréstimo familiar, firmado em contrato com o seu irmão Odilon dos Anjos, em 1912, escandalizando os parnasianos e gerando polêmicas na Crítica do Rio de Janeiro, que o ignorou, discriminou, excluiu e desprezou como excêntrico, arredio, esquisito e arrevesado.
Hermes Fontes é ainda mais feliz quando consegue prever o objetivo dessa autonomia, que se revela na aceitação e no reconhecimento social da inclusão do Eu, na ementa de Literatura Brasileira ou no mínimo destaque como “um grande poeta” consagrado por meio, também, da cultura nacional:
“Efetivamente, Augusto dos Anjos é um poeta que se não confunde com os outros. É diferente dos demais pelo credo, pela leitura e pela grande independência de pensar e dizer. Com os outros, isto é, com três ou quatro dos nossos grandes jovens poetas, ele se identifica apenas pela força da cultura, pela segurança, pelo brilho, pela excepcionalidade do seu estro. E, assim dito, sem desprateleirar ciências baratas e erudição adquirida à candeia da véspera, temos firmado que Augusto dos Anjos é no seu livro Eu, a afirmação de um grande espírito e o anúncio de um grande poeta.”
Contudo, é na análise por meio de classificação cuidadosa de algumas características estilísticas encontradas na obra de Augusto, que Hermes Fontes, já prevendo uma poética da transgressão nas expressões “anarquia luminosa e estonteante, elevação e extravagância, originalidade e preciosismo,” se estabelece e se instaura enquanto crítico relevante, a respeito do poeta:
“Viajando através dessas páginas, onde se acambulham, na mesma anarquia luminosa e estonteante, elevação e extravagância, originalidade e preciosismo, vôos e quedas, arrojos e descaídas, há sempre a viva surpresa das coisas, senão imprevistas, ao menos insólitas, senão agradáveis, ao menos interessantes.”( Fontes,1994: 49-50).
Desse modo, Hermes Fontes comprova a clareza do projeto coletivo da obra augusteana, que tem como meta, também, a compreensão do ser social no conjunto da poética de seu Eu transgressor. É como se a obra fosse mesmo, segundo suas palavras, poética de irreverência literária e/ou vanguarda da poética brasileira, na época, mas de cunho universal que emigra do individual.
Para tanto, mais uma vez, é convincente, quanto à forma mais aproximada de atingir a compreensão não só do Eu, mas também da obra de Augusto dos Anjos, quer em verso quer em prosa, quando ele, Hermes Fontes, faz esta descoberta:
“Assim, o livro de Augusto dos Anjos depende de muitas leituras. A primeira estonteia, a segunda entusiasma, a terceira sensaciona, a quarta encanta e conduz, não raro, à lágrima e ao êxtase. E, ainda as coisas extravagantes e disparatadas, adquirem forças novas, relâmpagos que nos haviam passado às vistas deslumbradas e obnubiladas. (….) O estudo pormenorizado da obra de Augusto dos Anjos oferece, entre contrastes aqui, e incongruências ali, a percepção de um grande número de sentimentos novos, novos estados da alma, não bem emoções, nuanças de emoções, arrepios, dolorosidades…” (Fontes, 1994: 50).
Adiante, ainda, Hermes Fontes (1994: 51-2) em seu ensaio “Crônica Literária” faz referências a “Monólogo de uma sombra”, “Versos a um cão”, analisa “A Idéia”, “Idealismo” e por fim tece este comentário bem ponderado como se previsse uma poética da transgressão:
“Todo o livro está cheio dessas curiosidades, desse alvoroço de idéias novas, harmonias novas, aspirações novas. Augusto dos Anjos, teosofista, meditativo, concentrativo, é, talvez, por isso mesmo, um cético. O seu livro é a dolorosa viagem através da sua personalidade. E a sua dor, ele a estende a todas as espécies e a todas as coisas.” (Fontes, 1994: 51).
Finalmente, Hermes Fontes organiza sua conclusão com um significativo reconhecimento da independência literária de Augusto dos Anjos, permeando não só o Eu, mas o conjunto de sua obra em prosa, também:
“E aí têm os que se preocupam com as boas letras da nossa terra mais um livro, mais um nome, mais uma personalidade. Modesto e pobre, desafeito ao chibantismo dos nossos literatecos triunfantes, ele, o poeta do Eu, triunfou sem se arrastar aos pés dos nossos papas intelectuais, os que organizam nas revistas e nos cenáculos quadrilhas literárias para amordaçar os bons espíritos surgentes ou para os obrigar ao beija-mão aviltante dos seus deuses de papelão e dos seus mestres proclamados em família, para melhor destino de suas confrarias…” (Fontes, 1994: 52).
Vejo que se esta “Crônica Literária” de Hermes Fontes não esgota a compreensão da obra de Augusto dos Anjos, enquanto uma poética da transgressão, pelo menos dela não se afasta. Posto que me revela nuanças do projeto coletivo, do compromisso natural, social e universal do poeta de “O Lamento das Coisas”:
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada! (…)
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!
(Anjos, 1994: 309).
Assim, para constatação ainda de seu caráter de arauto do monismo científico, vemos os versos de outro soneto, por meio de seus dois quartetos e dois tercetos, compostos em versos decassílabos em seu “Psychologia de um Vencido”:
Eu, filho do carbono e do ammoniaco,
Monstro de escuridão e rutilancia,
Soffro, desde a epigénesis da infancia,
A influencia má dos signos do zodiaco.
(Anjos, 1912: 14).
E a transgressão, o grotesco e a anarquia do eu lírico:
Já o verme — este operario das ruinas —
Que o sangue pôdre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roêl-os,
E ha de deixar-me apenas os cabellos,
Na frialdade inorganica da terra!
(Anjos, 1912: 14).
“O Poeta da Morte” é um invocado ensaio de Antônio Torres, publicado a 27 de dezembro de 1914, no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Embora muito bem intencionado e até feliz em algumas passagens e afirmações de aguçada percepção crítica, é um ensaio denso que acentua mais equívocos do que compreensão em torno da poesia augustiana. Seu ponto mais alto é atingido por ser pioneiro na questão biográfica de Augusto dos Anjos, haja vista ser uma publicação recente, com diferença de dois anos apenas, 1914, vinda a público logo após a primeira edição do Eu. Seu maior equívoco é ignorar o soneto “Saudade”, primeira poesia publicada por Augusto dos Anjos. Trata-se da máxima romântica das Literaturas de Língua Portuguesa, que Augusto dos Anjos também canta nesse soneto “Saudade”, publicado no Almanaque da Paraíba de 1900, e agora, nesta edição, marcando seu gosto pela composição em verso decassílabo ainda, nesses dois quartetos e dois tercetos:
Hoje que a magua me apunhala o seio,
E o coração me rasga, atroz, immensa,
Eu a bemdigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
A’ noute quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente;
P’ra illuminar-me a alma descontente,
Se accende o cirio triste da Saudade.
E assim affeito ás maguas e ao tormento,
E á dor e ao soffrimento eterno affeito,
Para dar vida á dor e ao soffrimento.
Da Saudade na campa ennegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no emtanto me alimenta a vida.
(Anjos, 1994: 42).
Daí, nesse ensaio, o crítico tecer comentários e equívocos a respeito da ausência duma essência erótico-amorosa no poeta de “A Floresta”. Vejamos, portanto, este trecho de Antônio Torres (1994: 54):
“O que torna extremamente destacado no seu meio este poeta é a ausência absoluta da tecla erótica no órgão magnífico de sua inspiração. Não cria no amor. Por isso não o decantava. Fenômeno inexplicável num homem nascido sob as ardências do nosso clima bárbaro e numa terra em que o amor é a nota predileta da musa indígena.”
Entre outras conjecturas e refutações, Antônio Torres lembra-me certo episódio de perseguição, empreendido por João Machado, então Presidente-Governador do Estado da Paraíba, a Augusto dos Anjos, que tanto sofreu na pele e em vida, por volta de 1910, tendo apenas respondido a tudo isso com o seu poema “Leitinho Quente”. Por essa época era Professor Concursado do Liceu Paraibano, Colégio do Estado da Paraíba sediado na Capital, e pleiteava apenas uma Licença a fim de ir ao Rio de Janeiro publicar o seu primeiro e único livro de poesias Eu. Daí que transcrevo ainda aqui a sua sátira mordaz neste desabafo ferindo suscetibilidades, assinada pelo pseudônimo W. de Augusto dos Anjos, dum poeta contra o caos da perseguição empreendida de forma feroz pelos seus algozes que lhe levaram a vida prematuramente:
O illustre presidente
Por causa do nosso ‘Estado’
Agora constantemente
Anda muito aperriado.
Por da cá aquella palha
Que o vento levante a esmo
Elle grita, berra, ralha
Com tudo e consigo mesmo.
Quando hoje sem detença
Dos Anjos Dr. Augusto
Foi pedir-lhe uma licença
Quasi que morre de susto.
Pois que o Dr. Rocambolle,
Fazendo o maior berreiro,
Respondeu-lhe ‘não me amolle’
Se queixe a meu carcereiro.
W.
Estado da Parahyba, 27 de agosto de 1910.
(Cf. Montgomery José de Vasconcelos, 1996: 242-243).
A questão fundamental aqui nesta situação é mostrar este poema que atribuo com plena convicção ser de Augusto dos Anjos, em desabafo, respondendo aos maus-tratos que sofrera daqueles seus algozes perseguidores, lacaios do poder paraibano, por ocasião da administração do seu maior perseguidor, Presidente João Machado, a quem outrora dedicara amizade fiel e leal. Daí o poema, em forma de “Registos da fala”, segundo Tzvetan Todorov (1993: 31-41). Por que este episódio marcou-lhe a vida a ponto de registrar este sentimento de revolta às perseguições por meio do mal que lhe fazem essas pessoas? Seria esta a resposta, dentre tantas que procura, no afã das suscetibilidades augustianas, cantadas no poema “A Luva”, em especial, nestes versos: “— A maldade do Mundo é muito grande,/ Mas meu orgulho inda é maior do que ela!//” (Anjos, 1994: 485-486). Observa Antônio Torres:
“Entendo que a crítica não deve ser confundida com os gabinetes de anatomia, nem foi feita para ostentar monstruosidades. A sua missão é apontar para a Beleza, cultuando o heroismo daqueles que souberam objetivá-la, principalmente em um meio ingrato e inóspito como o nosso, em que os gelos polares da indiferença, quando não as garrochas do sarcasmo, são o galardão que obtêm os que nasceram marcados pela fatalidade dos sonhos e das abstrações. Crítica sistematicamente demolidora façam-na os hepáticos, os hipocondríacos, os invejosos e os despeitados.” (Torres, 1994: 53-4).
Torres também faz revelações felizes em diversos momentos, principalmente quando detecta a influência dos monistas no vocabulário e/ou no glossário da poética científica de Augusto dos Anjos.
Depois de dezesseis annos de estudo
Generalisações grandes e ousadas
Traziam minhas forças concentradas
Na comprehensão monistica de tudo.
(Anjos, 1912: 95).
Foi seguindo um rastro silencioso e cauteloso que Antônio Torres pôde revelar a projeção do perfil da ciência na poética brasileira. Em suma, pôde assim garimpar as suas características imbricadas na relação entre a ciência monística dos naturalistas Haeckel, Darwin, Spencer, Buchner e Lamarck com a poética da transgressão augustiana. Assim, também, Augusto dos Anjos vem construindo a sua poética por meio da manifestação do seu eu como personagem estranho em “Sonho de um Monista”:
Eu e o esqueleto esquálido de Eschylo
Viajávamos, com uma ancia sybarita,
Por toda a pro-dynamica infinita,
Na inconsciencia de um zoóphito tranquillo.
A verdade espantosa do Prothylo
Me aterrava, mas dentro da alma afflicta
Via Deus — essa mónada exquisita —
Coordenando e animando tudo aquillo!
E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado,
Na gutturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,
Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intra-cósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!
(Anjos, 1912: 39).
E ainda nas “Tristesas de um Quarto Minguante”, em especial, nestes versos seus:
Mas tudo isto é illusão de minha parte!
Quem sabe se não é porque não saio
Desde que, 6.ª-feira, 3 de Maio,
Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!
Pau d’Arco, Maio—1907
(Anjos, 1912: 123-127).
Este é um apoema porque fala sobre outro poema e foi composto pelo poeta em maio de 1907, no Engenho Pau d’Arco, propriedade de sua família, onde se sentia bem e alegre, conforme confessa em versos de “Insomnia”, outra poesia da sua transgressão:
Com o olhar a verde periphéria abarco.
Estou alegre. Agora, por exemplo,
Cercado destas arvores, contemplo
As maravilhas reaes do meu Pau d’Arco!
Pau d’Arco—1905.
(Anjos, 1912: 119)
Trata-se, também, de paradoxo aos seus “Gemidos de Arte”, poema composto em 4-5-1907, antes de “Tristesas de um Quarto Minguante”, ambos no Engenho Pau d’Arco. Daí o gesto de generosidade intelectual de Antônio Torres a Augusto dos Anjos, quando assim se expressa:
“O autor do Eu era um caso realmente curioso, quase dizia, singular, na literatura brasileira.// Senhor de uma cultura científica superior à sua idade e ao meio em que estudou; sabendo versificar com elegância e brilhos; possuindo uma alma verdadeira de poeta e de idealista; era um monista convencido, pelo menos no princípio da sua vida. Via-se que a literatura demasiada de Haeckel e Spencer deixara-lhe um sulco profundo na inteligência.// No mundo ele via sempre as combinações cósmicas, as alianças elementares, as convulsões sísmicas, as revoluções telúricas e siderais, o amálgama de todas as forças latentes do Universo, submetidas à fatalidade das leis físicas e biológicas e tendendo para a harmonia e unidade da Vida.// Era esse materialismo que ia buscar os motivos da sua arte, fecundando-o com o seu idealismo tropical e vendo lutas e combates onde a ciência, através dos seus óculos autoritários, descobre apenas leis, princípios, fórmulas e equações.” (Torres, 1994: 53).
Mais adiante Antônio Torres arrisca apontar o credo de Augusto dos Anjos: ateu-materialista. Junta assim elementos biográficos, obra e hipóteses críticas. É sabido que o poeta de “No Campo” era de formação religiosa católica esmerada. Ressalto que todas as cartas à sua mãe Augusto encerra assim: “Abrace e abençoe Seu Filho ex-corde” ou com outras variações do tipo: “Abençoe a Glorinha e a Ester. Receba as saudades ardentes do Filho que lhe pede a bênção”. Basta vermos a sua prosa em “Correspondência” aos familiares e amigos (Anjos, 1994: 675-790); a sua produção poética no periódico religioso “Nonevar (1908)” em que no poema de mesmo nome, nos Versos de Circunstância, o poeta inicia invocando a Padroeira “Senhora Virgem-Mãe…” (Anjos, 1994: 499).
Também, seguindo o mesmo ritual religioso no poema “Nonevar (1909)”, ainda invocando a Padroeira, o poeta assim inicia:
Padroeira soberana: Eis-me, hoje, em vossa casa
Outra vez. Outra vez um fragmento da ampla asa
Materna, com que o kchátria e os sudras protegeis,
Ajoelhado, eu vos peço… Eu vos peço, outra vez,
Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam,
A neve tutelar e a bondade da benção
Que em minha trajetória hão de sempre cair!
(Anjos, 1994: 503).
E concluindo fecha o poema com essa despedida religiosa:
Adeus, Nossa Senhora! Adeus, Nosso Senhor!
(Anjos, 1994: 504).
Exceto a oscilação que mostra em o poema “Nonevar (1910)” fugindo completamente daquele ritual religioso dos poemas “Nonevar (1908)” e “Nonevar (1909)” quando reafirma a pluralidade, e despreza a unidade, àquilo que apresenta como norma clássica das escolas outrora negadas pelo mesmo como possível filiação, conforme defendeu em vida e deixou à posteridade por escrito na sua prosa. No início ao fim desse poema, por ocasião de sua colaboração poética local na Festa da Padroeira de Felipéia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, capital da Paraíba, assim o abre:
Alma da Filipéia, ignorada e esquecida
Na mais alta expressão dinâmica da Vida.
Sangue, estuando, a alardear rubros glóbulos bons,
Surge hoje o “Nonevar” de vossas tradições.
(Anjos, 1994: 535).
Como se fosse tudo e nada, juntos, ao mesmo tempo comédia, tragédia, epopéia e/ou até insensatez, próprios dum fazer poético com um quê de pluralidade, em especial, nesses versos do seu Eu megalômano:
Toda a tragicomédia autêntica do Fausto
E as medonhas criações diabólicas da Fé
E o Satan miltoniano e o diabo de Grasset
E os ritos ancestrais de Lao-Tseu e Mafoma,
Tudo isto, na coerência integral de uma soma
São microcosmos vis, comparados a mim.
Dançam agora no ar visagens de cetim.
Sou eu que, reduzido a um flóculo de neve
Imponderável como a molécula leve
Que a sensação visual não pode descobrir
Na ara de vossas mãos, venho ansioso cair!
(Anjos, 1994: 536).
Ou vem acentuar a sua fé e religiosidade oscilando do sublime ao grotesco por meio dum “Evangelho da podridão” que caracteriza uma poética da transgressão na tríade dos “Sonetos” I, II e III.
A tríade dos sonetos unindo características díspares e chocantes é a constatação e comprovação duma poética da transgressão, com elementos significativos, marcantes e fundamentais da pluralidade. Quebra a unidade cartesiana em favor da pluralidade que vai contra a corrente tradicional romântica, lírica, simbolista. Aponta às vezes à pós-modernidade e às produções mais radicais de vanguarda, como forma de oposição às características e às manifestações de estilos de época, considerados ineficazes pela crítica mordaz do próprio Augusto dos Anjos, que a fez em vida e a deixou por deboche na prosa.
a) a problematização, o ceticismo e a mágoa no Soneto “I A meu Pae doente”:
Para onde fores, Pae, para onde fôres,
Irei tambem, trilhando as mesmas ruas…
Tu, para amenisar as dôres tuas,
Eu, para amenisar as minhas dores!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as arvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Maguas crescendo e se fazendo horrores!
Maguaram-te, meu Pae?! Que mão sombria,
Indifferente aos mil tormentos teus
De assim maguar-te sem pezar havia?!
— Seria a mão de Deus?! Mas Deus emfim
E’ bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de maguar-te assim!
(Anjos,1912: 88).
b) o sublime, o agônico e a transcendência no Soneto “II A meu Pae morto”:
Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o officio da agonia.
Meu Pae nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que elle dormia,
E disse á minha Mãe que me dizia:
‘Acórda-o’! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E sahi para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abysmo de belleza,
Nem uma nevoa no estrellado veu…
Mas pareceu-me, entre as estrellas floreas,
Como Elias, num carro azul de glorias,
Ver a alma de meu Pae subindo ao Ceu!
(Anjos,1912: 89).
c) “O Evangelho da podridão”, o grotesco e o nojo no Soneto “III”:
Pôdre meu Pae! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pullulam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hydra
A uma só lei biologica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam.
Com a invariabilidade da clepsydra!…
Podre meu Pae! E a mão que enchi de beijos
Roida toda de bichos, como os queijos
Sobre a meza de orgiacos festins!…
Amo meu Pae na atómica desordem
Entre as boccas necróphagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
(Anjos,1912: 90).

Daí Antônio Torres (1994: 54) pontificar o ceticismo angelino mas sem convicção, posto que tergiversa para as qualidades técnicas e artísticas do poeta, remetendo-o à poesia sonora e colorida:
“Ora, Augusto dos Anjos, que, segundo parece, não cria em Deus, pelo menos como o entendem os teólogos, só podia cantar a matéria, idealizando-a, revelando-a sob uma sábia, rutilante e sonora combinação de palavras tão bem ritmadas que adquiriam cor e movimento.”
Esse mesmo crítico consegue captar a influência que o poeta sofreu do monismo, do evolucionismo, do positivismo e dos componentes de toda escola naturalista, quando mais adiante faz essas outras observações curiosas e significativas:
“Dirão talvez que a sua filosofia era avelhentada, que ele era um sectário de Haeckel e de Spencer, quando há tanta coisa nova e digna de ser decantada. Mas a verdade (e parece certo que ela existe nas teorias evolucionistas) não tem idade. Não envelhece nunca. E eu não sei qual será mais novo: se um poeta que canta os velhos símbolos clássicos ou românticos, ou se um outro que decanta os símbolos que a ciência descobriu, há uns cinqüenta anos. Desde que Lamarck, Buchner, Haeckel, Spencer, Darwin e outros da mesma escola estabeleceram em bases sólidas as suas teorias, até hoje, ainda não surgiu nenhum rumo novo apontado aos estetas, aos críticos e aos pensadores pelos homens da ciência de observação e experiência.” (Torres, 1994: 55).
Foi Antônio Torres, ainda, quem traçou de forma pioneira o perfil biográfico de Augusto dos Anjos, e, é neste mesmo ensaio que transcreve as próprias palavras do poeta em poesia como “O Poeta da Morte”. Daí, ressalto que todos os trabalhos biográficos posteriores sobre o poeta sofreram influência de Antônio Torres:
“Magro, de uma magreza ascética, que lhe dava ao corpo uma aparência por assim dizer fluida; como ele próprio confessa num soneto, Levando apenas na tumbal carcassa/O pergaminho singular da pele/E o chocalho fatídico dos ossos!// de uma honestidade sem limites; de uma pureza que, neste país e nestes tempos, devia ser vibrada aos quatro ventos da terra em clarinadas triunfais por trombetas de prata; incapaz de tergiversar manhosamente no cumprimento de um dever individual, cívico ou doméstico: inacessível, impermeável às sugestões da lisonja, quer ativa, quer passiva; nunca se dando ao desporto detestável de atassalhar a reputação literária ou particular dos seus confrades que entre nós, infelizmente, é tão comum nas periódicas campanhas literárias; jamais descendo, na palestra, a esses abandonos durante os quais as palavras, em trajes menores, correm rápidas como dardos e esfuziam como coriscos; bom e leal companheiro na amizade, simples, modesto, recatado, era um tipo de admiráveis virtudes individuais. Era materialista pela cultura; idealista por temperamento.” (Torres, 1994: 56).
Esse ensaio é publicado a 27/12/1914, portanto trabalho biográfico pioneiro.
O autor desse ensaio ainda faz nova observação em torno da vocação de arauto da ciência, que Augusto desempenha:
“As suas perambulações intermundiais deixaram-no insatisfeito. Era insaciável o seu desejo de ascensão. A sua vibrátil sensibilidade cada vez mais o distanciava do mundo que ele habitava. Queria subir, subir sempre, de mundo em mundo, num incessante quaere superius, como Santo Agostinho, contemplando as estrelas numa praia aromal do Mediterrâneo:” (Torres, 1994: 57).
Essas passagens são contribuições relevantes de Antônio Torres que em muito influenciam os críticos da poesia angelina, principalmente àqueles que desejam pesquisar o aspecto ideológico do poeta do Eu.
Finalmente, vem a tese de Antônio Torres, por meio de exemplos que ele mesmo destaca do soneto “O último Número”, sublinhando versos de um Augusto dos Anjos quase hermético:
“Que será o ‘último número?’ Será a última vibração do seu ser em prol da Beleza? Será o último transporte das suas faculdades em direção à sua companheira de todos os dias — a Poesia? Será a sua derradeira aspiração a objetivar na angústia de uma estrofe todo o infinito que ele trazia dentro de si? Pode não ser nada disso e pode ser tudo isso ao mesmo tempo…” (Torres, 1994: 59).
Concluo, portanto, que são preciosas as contribuições de Antônio Torres à leitura de todo o conjunto da poesia augusteana.
“Elogio de Augusto dos Anjos” é um ensaio biográfico de Órris Soares, escrito em dezembro de 1919 na Praia Formosa, Paraíba e retirado como apresentação de Eu (Poesias Completas). Todavia, só em 1920, vem a público numa edição da Imprensa Oficial da Paraíba. Trata-se dum dos estudos mais completos e profundos sobre o poeta, republicado nesta edição (1994: 60-73).
É uma espécie de retrato biográfico, partindo do soneto “Lamento das Coisas”, chegando a uma minuciosa dissertação e/ou densa descrição do espírito do poeta: “alma”, “mágoa” e “dor”. Contudo é mais um canto de tristeza científico que ciência, embora estando esses cientistas e filósofos na moda, por essa época:
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!
É a dor da Força desaproveitada,
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!
É o soluço da forma ainda imprecisa…
Da transcendência que se não realiza…
Da luz que não chegou a ser lampejo…
E é, em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!
(Anjos,1994: 309).
Contudo, devo observar um equívoco neste “Elogio de Augusto dos Anjos” de Órris Soares sobre ser 1913, a data da morte do poeta:
DECLARAÇÃO DE ÓBITO DE AUGUSTO DOS ANJOS
Aos doze dias do mês de novembro do ano de mil e Novecentos e quatorze nesta cidade de Leopoldina, Estado de Minas Gerais, em o meu cartório de Paz, compareceu o Cidadão Eduardo de Sousa Werneck, e exibindo o atestado médico declarou: Que hoje às quatro horas da manhã nesta cidade, à rua Cotegipe, faleceu o Doutor Augusto dos Anjos, Diretor do Grupo Escolar desta cidade, natural da Paraíba do Norte, com trinta anos de idade, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Dona Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, casado com Dona Ester Fialho Rodrigues dos Anjos, e deixa deste matrimônio dois filhos que são: Glória com três anos e Guilherme com um e meio ano, sendo a causa mortis pneumonia, conforme atestado do Dr. Custódio Junqueira que fica arquivado. Do que para constar, lavro este termo, que vai assinado pelo declarante. Eu, Garibaldi Cerqueira, Escrivão interino, que o escrevo e assino.
GARIBALDI CERQUEIRA
EDUARDO DE SOUSA WERNECK
(Anjos,1994: 802).
Portanto, constato o equívoco de Órris Soares (1994: 61) quando assim afirma:

“Augusto entrou na vida pelo ano de 1884, e dela foi violentamente arrancado no 1913.”

Trata-se ainda de mais um ensaio equivocado que fora publicado na edição de Eu (Poesias Completas) pela Imprensa Oficial da Paraíba, em 1920, cujos acréscimos, com certeza, foram feitos, também, por esse ensaísta amigo do poeta e seu primeiro biógrafo. Mas há muito que aproveitar deste ensaio. Sobretudo no que tange à biografia traçada por meio dum perfil inconfundível, como se fosse uma espécie de fotografia psicanalítica. Sua memória consegue reconstituir a cena inaugural de sua amizade com o poeta Augusto, datando por volta de 1900, seguida de uma curiosa impressão, que o levou assim a declarar:
“… Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado, todo encolhido nas asas com medo da chuva.” (Soares, 1994: 61).
Mais à vontade, como possível ensaísta biógrafo, Órris Soares inicia seu “Elogio de Augusto dos Anjos” com esmerado labor, e, em detalhes de quem conheceu mais na intimidade intelectual o poeta, e assim penso que foi mais por meio de seu soneto “Minha Finalidade”, que ousou “cantar de preferência o horrível”, do que mesmo pela convivência com as diferenças de uma íntima amizade. Contudo, quem sabe se, também, não propagava tal idéia em conversas e reuniões intelectuais, uma vez que Órris Soares era um de seus amigos mais próximos. Portanto, vejamos o soneto:
Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!
Predeterminação imprescritível!
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!
Na canonização emocionante
Da dor humana, sou maior que Dante,
— A águia dos latifúndios florentinos!
Sistematizo, soluçando, o Inferno…
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!
(Anjos, 1994: 333).

É fundamental a transcrição desse soneto porque dele Órris Soares tirou proveito para reafirmar mais tarde, quando o poeta já não mais existia, a sua não filiação literária a quaisquer escolas. Embora, realmente, o próprio poeta em vida propagasse essa assertiva, tanto em prosa quanto em poesia, tendo, inclusive, deixado esse legado por escrito para a crítica de sua posteridade examiná-lo mais amiúde e constatar no conjunto de sua obra até uma possível poética da transgressão. Senão, vejamos a transcrição seguinte de Órris Soares (1994: 60):
“Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas vistas transmudavam-se rápido, crescendo, interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau, sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. Na omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cerébro.”
Prossegue desenvolvendo a apologia da dor, lembrando aqui, que, essa mesma manifestação, refletida por meio de nossos órgãos dos sentidos, fora explorada até às últimas conseqüências pelo poeta em estudo. Inclusive passa à afirmação de que sem a dor não há quaisquer manifestações de percepção.
Assim, fica clara a tonalidade de sua descrição biográfica em cores tétricas, o que não combina com o gosto e a preferência do próprio Augusto quando respondeu ao questionário sobre “A Loucura dos Intelectuais”, do Dr. Licínio Santos, em 1914, no qual afirma gostar mais das cores vermelha e azul e não da cor negra. E quanto aos poetas que mais o impressionaram respondeu categórico: William Shakespeare e Edgar Alan Poe.
Retornando à polêmica, é sabido que Órris Soares é também da opinião de que Augusto dos Anjos não se filiou a nenhuma escola, e parece que ambos comungaram essa mesma espécie de pacto. É como se eles fossem membros efetivos daquelas expressões augusteanas: “bastardia literária” e “superfetação poética”. Vejamos pois sua afirmação veemente a respeito desse acordo curioso:
“A que escola se filiou? — A nenhuma. Se o homem vale por seus sentimentos, com dobradas razões o poeta, dada sua maior riqueza de sensações. Isso de escolas é esquadria para medíocres. Só existe uma regra de escrita — a do escritor apoderar-se de sua língua e manejá-la de acordo com o seu individualíssimo sentir. Se for um iluminado, fatalmente será grande, se lhe faltar a centelha divina, explorará quantos processos ou confrarias apareçam e nunca passará de número anódino, no meio da turbamulta dos escrevinhadores.” (Soares, 1994: 62).
Órris Soares faz outros comentários sobre o livro de poesias de Augusto dos Anjos, dizendo que sua obra “vale por uma autopsicologia”. Talvez pensando apenas no título isolado do Eu, do que mesmo no conjunto de toda a poesia do vate paraibano, que escreveu, inclusive, prosa, versos de circunstância, ensaios, crônicas e outros gêneros curiosos como versos comerciais, carnavalescos, discursos, e polêmicas críticas locais, usando dez pseudônimos.
Daí em diante, o ensaio torna-se repetitivo nas comparações com poetas consagrados, levando o leitor à situação confusa. É sabido que a compreensão da poesia de Augusto dos Anjos em si já é um exercício complexo, para todo leitor, que, à primeira vista, se sente agredido pelo turbilhão de idéias e informações prolixas duma crítica inadequada. Esses pontos incoerentes vão afastando o neófito da poesia e prosa augustiana, que dependem da compreensão desse método plural e diferente.
“O Poeta do Eu” é um ensaio curto de João Ribeiro (1994: 73-76) retirado de Imparcial, Rio de Janeiro, 22 de março de 1920. Trata-se de estudo que se move na esteira de dados biográficos, apontando Soares como o melhor crítico da poesia de Augusto. Apenas reafirma as idéias do ensaio anterior, dando algumas contribuições, como por exemplo, ao revelar, de forma atualizadíssima já para aquela época, os estudos revolucionários e então recentes de Einstein, que ameaçava “o princípio newtoniano da gravitação” (João Ribeiro, 1994: 74). Esse ensaio, também, aproxima a poesia de Augusto à de Baudelaire e às teorias naturalistas de Haeckel.
Todavia, ao que pesa contribuição notável, também João Ribeiro, de saída, comete equívoco, quanto à idade de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, ao afirmar que o poeta “viveu, apenas vinte e nove anos”, quando o certo é afirmar trinta anos, pois se ele nasceu a vinte de abril de mil e oitocentos e oitenta e quatro e, conforme “Declaração de Óbito de Augusto dos Anjos” bem como “Carta de Ester Fialho à Mãe do Poeta sobre seu Falecimento” (Anjos, 1994: 803-805) faleceu “Aos doze dias do mês de novembro do ano de mil e novecentos e quatorze” (Augusto dos Anjos, 1994: 802) mais preciso ainda seria dizer trinta anos, seis meses e vinte e três dias.
João Ribeiro aponta a possibilidade de Augusto dos Anjos, ao desenvolver temas tétricos — “…procurasse inspiração no espetáculo dos lázaros, dos tísicos e epiléticos, nos cemitérios, nos morcegos, e nos vermes.” — estar construindo uma estética do grotesco, por assim dizer. Este dado é por demais relevante à tese que empreendo e afirmo ser uma poética da transgressão a do poeta.
“Nota sobre Augusto dos Anjos” é ensaio publicado por Gilberto Freyre, no The Stratford Monthly, Boston, setembro de 1924, traduzido do inglês por Miguel Lopes Vieira Pinto e revisto pelo autor por volta de 1943. Reproduzido em Perfil de Euclides e outros perfis. Rio de Janeiro, José Olimpio, 1944 (Coleção Documentos Brasileiros 41).
Esse ensaio de Gilberto Freyre (1994: 76-81) abre fronteiras internacionais à obra de Augusto por causa da seriedade com que o seu autor-sociólogo desenvolve uma profunda análise da forma e do conteúdo da poesia de Augusto, citando essas palavras de José Lins do Rego: “… uma interpretação nova a um caso agudo de desajustamento de personalidade”. Muito embora isto seja feito com alguns equívocos quanto às questões biográficas: por exemplo, equivocar-se quanto à doença do poeta que foi pneumonia e não tuberculose. E, acima de tudo, abordar mais certo caráter psicológico com tonalidades sociológicas, que forçam e aumentam ainda mais a dificuldade e a improrrogável necessidade de compreensão da poesia de Augusto dos Anjos, porque tenta convencer o leitor de que há influência do “sadismo” (Freyre, 1994: 76) evoluindo a um “masoquismo empático” (Freyre, 1994: 77) na composição poética em questão, o que me parece ser o mais puro modismo tanto outrora quanto agora.
“Um Livro Imortal” é o ensaio de Agripino Grieco (1994: 81-89) atualizado em Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) pela Editora Nova Aguilar mas outrora publicado em O Jornal, Rio de Janeiro, 16 de setembro de 1926, e reproduzido no livro Evolução da Poesia Brasileira, também, lançado no Rio de Janeiro pela Editora Ariel em 1932. Neste ensaio o autor observa e confirma a influência do cientificismo evolucionista de Haeckel, Spencer e Tobias Barreto, da Escola Filosófica de Recife.
“O Livro mais Estupendo: o Eu”, também é um ensaio de Medeiros e Albuquerque (1994: 89-97) com atualização neste Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) pela Editora Nova Aguilar e reproduzido de Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1928. O ensaísta aborda o caráter inédito do Eu de Augusto dos Anjos e seu espantoso sucesso de livraria nos últimos tempos, comprovando uma centena de edições esgotadas. Trata ainda do caráter inédito e original da poesia angelina.
“Augusto dos Anjos”, de Raul Machado (1994: 97-111) na edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) é outro ensaio que se encontra publicado no livro Dança de Idéias, lançado no Rio de Janeiro em 1939. Neste estudo, seu autor aponta influências de Schopenhauer, Spencer e Haeckel na poesia de Augusto dos Anjos, que se encontra e se denuncia numa possível fisionomia incoerente do pessimismo com o panteísmo, daí a sua contradição: “…o panteísmo era-lhe, também, feição notável da lira.” (Machado, 1994: 102). Contradição radical e imperdoável essa porque quem a expressa é o próprio Raul Machado, embora inadequado, mas com base, também, na ciência e à luz dos teóricos da filosofia do pessimismo e da ciência do naturalismo, evolucionismo, positivismo de Comte e congêneres.
Enfim há um turbilhão de conceitos científicos e filosóficos grassando a consciência atormentada de Augusto, que vai influenciar todo o conjunto de sua poética a ponto de haver inevitavelmente o fenômeno da transgressão. Isto é irreversível porque advém do indizível, do ignorado e do indomável coração de poeta que fez questão de mostrar no soneto “Vencedor” (Anjos, 1912: 102).
Além do que é óbvio, trivial e ululante o poeta versar com esmero a métrica tanto clássica quanto moderna por meio do verso livre que instaura e abre o Eu, rimando no poema “Monologo de uma Sombra” a letra “S” com “apodrece” e ainda na crônica “Punhaladas: conclusão de análise perfunctória duma carta aberta pornográfica” esse mesmo “S” com “esquece”, o número “7” com “espermacete” no soneto “Perfis Chaleiras”, de seu pseudônimo Zé do Pátio, e pondo o mundo às avessas nos versos “De cabeça para baixo/ E de pernas para cima.//” (Anjos, 1994: 610) nessa mesma crônica “Punhaladas”.
“Augusto dos Anjos”, de José Oiticica (1994: 112-113) nesta edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883), é um curtíssimo ensaio, reproduzido de A Manhã, do Suplemento Literário Autores e Livros, lançado no Rio de Janeiro a 30 de novembro de 1941. O autor compara a perda de Augusto à de Castro Alves no cenário da Literatura Brasileira. José Oiticica segue fielmente o rastro de Órris Soares, que traçou, como características da poesia de Augusto, três fatores, a saber: a) individualíssimo, ou seja, a doença; b) mesológico, isto é, a raça; c) espiritual, isto é, a tristeza.
“Augusto dos Anjos” é outro pequeno ensaio, também, doutro poeta do Nordeste, Manuel Bandeira (1994: 114-116), nesta edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883), reproduzido de seu livro Apresentação da Poesia Brasileira, lançado no Rio de Janeiro, e publicado pela Casa do Estudante do Brasil, em sua primeira edição, em 1944. Até mesmo um crítico já consagrado, como é o caso de Manuel Bandeira, se equivoca quanto à enfermidade de Augusto dos Anjos, da qual ele mesmo também fora acometido. Talvez, ele sim é quem padecera do que afirmara padecer Augusto dos Anjos de tamanho mal e enfermidade.
Contudo, nesse seu ensaio, Manuel Bandeira faz observação inédita, lembrando que Augusto dos Anjos era poeta desde os sete anos de idade. Há divergência porque como é sabido “Saudade” vem a ser o primeiro soneto de Augusto dos Anjos, já em versos decassílabos, preferência e característica peculiares suas, publicado no Almanaque da Paraíba de 1900, portanto aos 16 anos de idade do poeta. Embora há que se concordar em parte com Manuel Bandeira porque na mais tenra idade Augusto dos Anjos já apresentava indícios fortes de poeta esmerado dada a sua intensa atividade acadêmica familiar, animada pelo pai, o Dr. Alexandre Rodrigues dos Anjos. Este, além de Senhor de Engenho, Juiz de Direito, também, era intelectual, pedagogo e uma espécie de instaurador da escola socrática à sombra dos diálogos da maiêutica “Debaixo do Tamarindo” e às margens de “Lago Encantado”, ambos às cercanias do Engenho Pau d’Arco. Como Patriarca dos Rodrigues e “Carvalhos” dos Anjos iniciara o poeta e seus irmãos nas primeiras letras da educação:
No tempo de meu Pae, sob estes galhos,
Como uma véla funebre de cêra,
Chorei billiões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!
Hoje, esta arvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flóra Brazileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relogios
De minha vida, e a voz dos necrologios
Gritar nos noticiarios que eu morri,
Voltando á patria da homogeneidade,
Abraçada com a propria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
(Anjos,1912: 21).
Já em “Lago Encantado”, testemunha e estatuto do saber da escola socrática instaurada “Debaixo do Tamarindo”, o poeta usa recurso de “soneto estrambótico”, recorrendo ao “estramboto”, considerado uma transgressão poética de Augusto dos Anjos que em todo Eu usou o modo clássico de soneto com catorze versos enquanto neste mistura quarteto com terceto e sexteto. Daí a sua poética da transgressão, também, neste aspecto da técnica de métrica, quando estranhamente mantém o verso decassílabo, traço caracterizador seu, nesse tipo de “soneto estrambótico” vislumbrando à promoção a poema:
Vamos, meu desgraçado tamarindo,
Por esta grande noite abandonada…
As árvores da terra estão dormindo
E a mãe da lua já cantou na estrada!
Quantos laboratórios subterrâneos
E heterogêneos mecanismos vários
E ruínas grandes e montões de estrago
E decomposições de muitos crânios
Não foram, porventura, necessários
Para formar as águas deste lago!
Às suas atrações ninguém resiste:
Este é o lago de todos os Destinos.
O luar o beija. O círculo dos matos
Abrange-o, e ele é mais triste e ele é mais triste
Do que a porta fatal dos Mogrebinos
Que levou Cristo à casa de Pilatos!
Rola no mundo um canto de saudade!
Tamarindo de minha mocidade,
Vamos nele saber nossos destinos?!…
(Anjos,1994: 492).
“Augusto dos Anjos Poeta Moderno” é o título do ensaio de Álvaro Lins (1994: 116-127) nesta edição, reproduzido de Jornal de Crítica, Quarta série, que veio a público no Rio de Janeiro, pela editora José Olímpio, 1951, e publicado outrora no Correio da Manhã, também na cidade do Rio de Janeiro, a 7-14 de março de 1947. Para o autor deste ensaio Augusto dos Anjos está mais próximo de Edgar Alan Poe e Hoffmann do que de Baudelaire, porém lhe reserva um lugar seguro às portas do Modernismo, a partir de suas características e semelhanças com autores modernos. Daí, o ensaísta afirmar que de todos os poetas, Augusto dos Anjos é “o único realmente moderno”. Muito embora reconheça Augusto dos Anjos como introdutor do Naturalismo na poesia brasileira, não acredita na união entre ciência e poesia.
“Augusto dos Anjos e o Simbolismo” é a contribuição de Andrade Murici (1994: 127-133) à edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) com base numa possível classificação poética, que foi reproduzida de sua obra em livro Panorama do Simbolismo Brasileiro. Vol. III, vindo a público no Rio de Janeiro, sob os auspícios do Instituto Nacional do Livro, no ano de 1952. O autor deste ensaio cita como maior prova de Simbolismo, as poesias “Eterna Mágoa” e “Uma Noite no Cairo”, de Augusto dos Anjos, que, segundo ele, sucede legítima e diretamente a Cruz e Sousa. Do mesmo modo, o soneto “Vandalismo” (Augusto dos Anjos, 1912: 100) apresenta características ainda mais fortes do Simbolismo:
Meu coração tem cathedraes immensas
Templos de priscas e longinquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a alleluia virginal das crenças.
Na ogiva fulgida e nas columnatas
Vertem lustraes irradiações intensas
Scintillações de lampadas suspensas
E as amethystas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templarios medievaes
Entrei um dia nessas cathedraes
E nesses templos cláros e risonhos…
E erguendo os gládios e brandindo as hástas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus proprios sonhos!
Pau d’Arco – 1904
(Anjos,1912: 100).
Contudo, ainda, é curioso observar como mesmo sendo este um soneto à luz das características do Simbolismo, mesmo assim, fica claro o seu tom marcante de poética da transgressão já no próprio título: “Vandalismo”. E ainda mais quando envereda pelo denso vocabulário augustiano transcendendo todas e quaisquer formas de aproximação às características do seu fazer poético arrevesado indo na contramão dos cânones vigentes porque compõe uma poesia às avessas do costume tradicional, clássico e aceitável. Assim, em sua primeira estrofe e quarteto, há transgressão na personificação do coração proprietário de “cathedraes immensas” e “Templos de priscas”. Nos tercetos há transgressão do riso em “desarmonia” de “templos cláros e risonhos…” e “dos iconoclastas” que quebram regras e “imagem” por meio do “desespero” rompendo com a esperança do poeta que transita entre seus “proprios sonhos” e a realidade transgredida pela sua condição iconoclasta.
“Augusto dos Anjos e o Engenho Pau D’Arco”, de José Lins do Rego (1994: 133-141) é a contribuição à edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) da Editora Nova Aguilar, reproduzido de sua obra em livro Homens, seres e coisas, publicado no Rio de Janeiro às expensas do Ministério da Educação e Cultura/Serviço de Documentação, no ano de 1952 (Col. Os Cadernos de Cultura). Este, também, é dentre tantos o ensaio mais identificado com outro seu patrício e/ou conterrâneo, que se entende à luz da sociologia de Gilberto Freyre, de saída, citado antes de levantados quaisquer tipos de pontuações críticas do romancista. Nas palavras do autor deste ensaio há uma síntese para a sociologia e/ou à genealogia e à filosofia da família Carvalho de Rodrigues dos Anjos: “O tamarindo se transforma numa escola socrática.” (Lins do Rego, 1994: 134). Trata-se dum ensaio que traça um perfil psicológico e filosófico de Augusto dos Anjos, além de dar-lhe o estatuto de “a expressão mais original da poesia brasileira”. (Lins do Rego, 1994: 133).
“A Poesia Científica de Augusto dos Anjos” é um trabalho polêmico de José Escobar Faria (1994: 141-149) lido aqui, ainda, como contribuição à edição Obra completa: volume único/Augusto dos Anjos (1994: 11-883) da Editora Nova Aguilar, também, reproduzido de Revista do Livro, que veio a público no Rio de Janeiro, 1/1-2, em junho de 1956. Tal polêmica merece atenção, em especial, se se pretende uma pesquisa com vistas à obra poética desse Eu transgressor porque se instaura num vocabulário científico arrevesado.
“Augusto dos Anjos Um poeta e sua identidade” é um mero estudo repetitivo e sem grande interesse de Carlos Burlamaqui Kopke (1994: 150-160) mas que traz, de certa forma, uma contribuição à edição Obra completa (1994: 11-883). Além do que vem à luz de outra reprodução de Alguns Ensaios de Literatura publicado em São Paulo pela Edições Pégaso, no ano de 1958. Portanto, há que se considerar quase meio século às investigações científicas atuais, dispondo de recursos tecnológicos mais avançados.
“A Poesia de Augusto dos Anjos” é um ensaio biográfico de Wilson Castelo Branco (1994: 160-165) à edição Obra completa (1994: 11-883) que por sua vez fora reproduzido de a Folha de Minas, vindo a público em Belo Horizonte, com vigência no período entre 20 e 28 de junho do ano de 1959.
“Augusto dos Anjos Salvo pelo Povo”, ensaio popular-coletivo, nos moldes mesmo de produção da poética underground, de Fausto Cunha (1994: 165-170) é outra contribuição à edição Obra completa (1994: 11-883). Trata-se de pesquisa, investigação e estudo interessantes de um dos críticos mais citados sobre a poesia de Augusto dos Anjos, por seu caráter profundo, no tocante à reunião de versos da poética angelina ainda inédita. Daí, também, que vem a ser pioneiro em nível de descoberta popular.
“Reportagem Cinqüentenário da Morte de Augusto dos Anjos”, de Antônio Houaiss (1994: 170-174). Trata-se de uma das mais significativas contribuições à edição presente nesse momento que é Obra completa (1994: 11-883). Como ensaio em forma de relato, reproduzido de Correio da Manhã, veio a público no Rio de Janeiro a 7 de novembro, em 1964. É um ensaio curto, mas relevante para a crítica do poeta porque analisa a forma e o conteúdo da poesia de Augusto dos Anjos com método estatístico, um verdadeiro levantamento concreto. Só este crítico recupera a poesia de Augusto dos Anjos por meio dum exercício rigoroso, processado com dados de caráter lógico-estatísticos, levantados com minúcia apurada, em sucessivos parágrafos numerados, que determinados gramáticos recomendados pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) denominam “parágrafo por enumeração”.
“Aproximações e Antinomias entre Baudelaire e Augusto dos Anjos” trata de um estudo de Eudes Barros (1994: 174-179) Obra completa (1994: 11-883), que por sua vez foi reproduzido a partir de o Diário de Notícias, em seu Suplemento Literário, no Rio de Janeiro, a 6 de dezembro de 1964. Trata-se, ainda, de um estudo de literatura comparada, além do que o ensaísta é um dos maiores pioneiros em ensaios psicológicos sobre a vida e a obra do poeta. Este ensaio revela traços fortes e decisivos para uma possível indicação sobre o caráter moderno da poesia augusteana.
“Augusto dos Anjos num Estudo Incolor” é um ensaio curioso de crítica e aspectos filosófico-científicos de Elbio Spencer (1994: 180-185). Trata-se de contribuição também importante à edição crítica atual Obra completa (1994: 11-883), que o reproduz de o Jornal do Comércio, Recife, publicado a 7 de abril de 1967. Esse ensaio já abre com epígrafe do pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer, apontando-o como um dos maiores influenciadores do poeta denominado o “Baudelaire paraibano”, expressão do crítico cearense F. S. Nascimento.
“A Costela de Prata de Augusto dos Anjos” é o último ensaio dessa edição crítica em forma, também, de introdução geral, que vem assinado por Anatol Rosenfeld (1994: 186-190). Esse ensaio, também, contribui de forma imprescindível à organização atual de Obra completa (1994: 11-883). Trata-se de ensaio extraído de Texto/Contexto, obra do autor e crítico que a publica pela Editora Perspectiva de São Paulo, em 1969. O ensaíta vê a produção de versos augustianos sob um ângulo didático-filosófico, além de fazer aproximações coerentes entre poetas expressionistas alemães como Georg Heym e Gottfried Benn ― que também publica Morgue um volume de poesia em 1912 ― e Augusto dos Anjos. Muito embora o defina mais como um poeta que se estabelece no momento crucial do pré-modernismo brasileiro.
1.1.1. O precursor da recepção e fortuna crítica na poética do Eu
A fortuna crítica de Augusto dos Anjos se enriquece na cena inaugural da primeira organização de textos críticos em nível nacional que se deve com exclusividade a Afrânio Coutinho e Sônia Brayner (1973: 11-366) quando trazem a público uma coletânea organizada no livro Augusto dos Anjos, textos críticos, no qual reúnem 38 ensaios imprescindíveis à compreensão duma poética da transgressão “anjosiana” ou “angelina” com “Nota Preliminar”.
Nessa “Nota Preliminar”, os organizadores e os autores dos ensaios respectivos abrem o caminho promissor para os estudos e programas didáticos elaborados com rigor científico à pesquisa sobre uma possível poética da transgressão de Augusto dos Anjos em nível de Pós-graduação. Assim, deixam a ousadia aos pesquisadores mais novos e que se lhes apresentam numa imagem comportamental de neófitos fogosos. Motivo pelo qual a coletânea também vem no formato de livro e foi composto e impresso no centro Gráfico do Senado Federal, no mês de julho de 1973, para o Instituto Nacional do Livro, sob os auspícios de campanha voltada à educação nacional.
Eis a súmula da coletânea, cuja referência de ensaios e autores resumi à luz de confronto à Obra Completa, organizada por Alexei Bueno.
“Nota preliminar
Cronologia
Bibliografia do autor
Bibliografia sôbre o autor
Notas biográficas – Francisco de Assis Barbosa
Cinqüentenário da morte de Augusto dos Anjos – Antônio Houaiss
Texto e nota – Antônio Houaiss
Edição crítica – Francisco de Assis Barbosa
O poeta da morte – Antônio Torres
Elogio de Augusto dos Anjos – Órris Soares
O poeta do ‘Eu’ – João Ribeiro
Augusto dos Anjos – Tasso da Silveira
Nota sôbre Augusto dos Anjos – Gilberto Freyre
Um livro imortal – Agripino Grieco
O livro mais estupendo: o ‘Eu’ – Medeiros e Albuquerque
Releitura do ‘Eu’ – Dante Milano
Augusto dos Anjos – José Oiticica
Augusto dos Anjos – José Lins do Rego
Augusto dos Anjos – Manuel Bandeira
Poética e psicopatologia de Augusto dos Anjos – Carlos Burlamaqui Kopke
Augusto dos Anjos poeta moderno – Álvaro Lins
Augusto dos Anjos e o simbolismo – Andrade Murici
Augusto dos Anjos e o engenho Pau-D’arco – José Lins do Rêgo
Artesanato em Augusto dos Anjos – M. Cavalcanti Proença
A poesia científica de Augusto dos Anjos – José Escobar Farias
Nota para um rimário de Augusto dos Anjos – M. Cavalcanti Proença
Augusto dos Anjos – um poeta e sua identidade – Carlos Burlamaqui Kopke
Augusto dos Anjos – Darci Damasceno
A poesia de Augusto dos Anjos – Wilson Castelo Branco
A costela de prata de Augusto dos Anjos – Anatol Rosenfeld
Sôbre Augusto dos Anjos – Antônio Houaiss
As diatomáceas da lagoa – Lêdo Ivo
Augusto dos Anjos – Wilson Martins
Arredores de um pronome – Lêdo Ivo
Augusto dos Anjos – Naief Sáfady
Augusto dos Anjos salvo pelo povo – Fausto Cunha
Aproximações e antinomias entre Baudelaire e Augusto dos Anjos – Eudes Barros
Augusto dos Anjos num estudo incolor – Elbio Spencer”
(Afrânio Coutinho e Sônia Brayner, 1973: 11-366).
Ainda nesta coletânea, seus colaboradores dão maior idéia e visão de conjunto e unidade da recepção e fortuna crítica, de saída, também, pioneira nos estudos de análise e interpretação, que a partir de então proliferaram em dissertações, teses e publicações acadêmicas nos cursos e programas de pós-graduação do Brasil. Daí que passou a ser uma referência bibliográfica obrigatória a quem quer que ousasse ainda pesquisar sobre a poética de Augusto dos Anjos mesmo considerando alguns críticos da comunidade científica brasileira ser tema já passadiço.
“Notas Biográficas” de Francisco de Assis Barbosa (1965: 293-324) é o ensaio mais completo e abalizado para a 30ª edição do Eu (Outras Poesias – Poemas Esquecidos) porque mostra as características duma poesia com indícios fortes, traços acentuados e eminência decisiva para o inclassificável na poética brasileira. O ensaio ainda traz à tona o caso de Augusto dos Anjos como impar, inusitado, original, estranho e excêntrico, porque trata, também, de tema e símbolos aparentemente modernos, mas que se aproximam mais duma manifestação poética inclassificável. Ainda, porque nessa poesia se acentuam pontuações estranhas que se afastam de quaisquer características classificáveis em escolas e movimentos. Francisco de Assis Barbosa vê esses indícios quando o poeta tenta desenvolver em sua composição relações que não podemos ler à luz de quaisquer teorias das escolas, cujas classificações o incluíram.
A diferença gritante da poesia desse Eu estranho de Augusto dos Anjos faz com que nas suas “Notas Biográficas” Francisco de Assis Barbosa observe características como “inclassificável”, “à margem”, “pessimismo de Schopenhauer”, “braamanismo”, “budismo”, “anticristianismo guerreiro de Nietzsche”, “literatura condenada dos ratés” e até mesmo “Um caso patológico”:
“Perguntassem lá pelo nome de Augusto dos Anjos. O que poderiam responder é que se tratava de um estreante, autor de uns versos extravagantes. Nada mais. O Eu, além de uma ou outra nota esparsa e dos artigos acima citados, enquadrava-se na literatura condenada dos ratés, dos inconformados, colocados à margem. (…) Era de fato diferente. A sinceridade de Augusto dos Anjos, falando de suas taras familiares, com a sem-cerimônia de um menino mal-educado, produzia um impacto desagradável em tôda a camarilha intelectual, dominada pelo bovarismo da época, em que o Rio de Janeiro iniciava um período de falso esplendor, depois da reforma urbanística de Pereira Passos e da campanha sanitária de Osvaldo Cruz, não mais o Rio de Janeiro visitado constantemente pela febre amarela, mas a cidade catita, que já competia em elegâncias com a pequena Paris da América do Sul que era Buenos Aires. Augusto estava longe de ser o poeta da moda. Nem os poemas do Eu poderiam ser declamados nos salões, sob pena de provocar engulhos, risos, vaias. O poeta era inclassificável. O máximo que poderia obter, como ponto de referência, eram adjetivos pouco recomendáveis, como estapafúrdio, aberrante, desequilibrado. Um caso patológico. Em matéria de extravagâncias, aparecia na mesma linha de um Caio Monteiro de Barros, no plano político, pretendendo organizar um Partido Socialista, ao mesmo tempo antimilitarista, anticapitalista e anticlericalista. (…) É que o poeta, no plano das idéias, permaneceria sempre dentro dos limites de um filosofismo puramente teórico, sem cogitar de aplicar o mecanismo mental que estava elaborando na militância político-ideológica — e era esta afinal a posição unânime da intelligentsia do seu tempo. Imbuído mais talvez do pessimismo de Schopenhauer que do evolucionismo de Spencer ou do monismo de Haeckel, (…) num quadro que não era só de certezas mas também de angústias, matizado pelo anticristianismo guerreiro de Nietzsche e pelo misticismo pacifista de Tolstói. (…) Mas Augusto dos Anjos não estaria preocupado em seguir a moda, tanto assim que não se impressionou com o positivismo, quando o prestígio de Augusto Comte ainda se mantinha de pé, sobretudo no Brasil. A procura da verdade, que foi aliás um ideal tolstoiano, levou-o a Schopenhauer e, através do autor de Dores do mundo, chegaria ao braamanismo e ao budismo.” (Barbosa, 1965: 315-316).
Nessas “Notas Biográficas” há uma clareza da definição do Eu enquanto manifestação poética no repertório da literatura brasileira. Contudo, há também enorme resistência da fortuna crítica que lhe reservou cadeira fixa em algumas escolas, movimento e estilos de época, quando até forçava adaptá-la às teorias díspares sem sucesso. É como se todas essas teorias naufragassem, também, nessa poesia, que a partir de seu próprio projeto estético e ideológico nos engana, nos levando a crer, também, na possível manifestação de antropofagia dos temas científicos, tanáticos, modernos e até numa irreverência literária e/ou vanguarda anônima duma poética da transgressão.
Poderíamos pensar que o poeta em seu desatino obsessivo vai cruzando uma polifonia e um dialogismo do discurso social bakhtinianos de teorias poéticas inusitadas sem comprometer a pluralidade, o estilo elegante, a organização, a harmonia das idéias e um certo tom sublime estético, mas com mesclas carregadas duma estética do grotesco. Assim, para Francisco de Assis Barbosa Eu (Outras Poesias – Poemas Esquecidos) de Augusto dos Anjos, pode ser considerado um gênero de poesia casto e estilo nobre ao olho crítico que segue os fundamentos e princípios da Poética de Aristóteles [384-322 a.C.] (1992: 7-151) ou até da Poética contemporânea de Tzvetan Todorov (1993: 5-105).
Augusto dos Anjos também vem a ser definido mais como um poeta que se estabelece no momento crucial do pré-modernismo brasileiro. Daí que tal consideração faz integração com os renomados críticos Alfredo Bosi (1967: 41-51) Ferreira Gullar (1978: 13-60) e Gilberto Mendonça Teles (1996: 141-354) e (1979: 80, 316). Mas é este último quem aponta o traço pioneiro de um Augusto dos Anjos poeta abrindo as portas às mudanças do modernismo de 22, quando assim afirma:
“Augusto dos Anjos foi a primeira reação contra os parnasianos e simbolistas no tocante ao uso do proparoxítono no final do verso, e com função de rima. No seu livro (Eu/e outras poesias, 1912/1919), mais na primeira parte, existem inúmeros exemplos de rima esdrúxula e com palavras realmente ‘esdrúxulas’ para a concepção retórica da época: amoníaco/zodíaco/hipocondríaco/cardíaco, no soneto ‘Psicologia de um vencido’; vômito/indômito, na II parte de ‘As cismas do destino’, etc. A sua obra, apesar de rigidamente metrificada, constitui as primeiras rupturas com a retórica predominante, pois tanto nos temas como no uso das palavras foi um desautomatizador que abriu caminho para a transformação modernista de 1922.” (Teles, 1979: 80).
Mas dentre todos da recepção e fortuna crítica augustiana é Ferreira Gullar (1978: 11-206) quem tem a pretensão de escrever Toda a poesia de Augusto dos Anjos. E até agora é a publicação original, concernente ao “caráter concreto” duma possível poética da transgressão augusteana, imprescindível e indispensável porque Ferreira Gullar (1978: 42-3) considera três fases (1ª:1901 a 1905; 2ª:1905-6 a 1910; 3ª: 1910 a 1914). Faz com certa tranquilidade essa divisão didática, além de aproximá-la à “linguagem ‘prosaica’ da poesia pós-22” (Gullar, 1978: 34) e influenciar João Cabral de Mello Neto (Gullar, 1978: 39). Mesmo sendo poetas díspares, foi Augusto dos Anjos quem primeiro cantou em “versos a indigência da morte (e vida) nordestina.” (Gullar, 1978: 60).
Ao partir de investigações científicas rigorosas em torno da estética do Eu, Ferreira Gullar chega a levantar palavras e expressões como se fosse assim um glossário duma possível poesia da transgressão. Mas é por meio desse ensaio denso Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina que Ferreira Gullar (1978: 13-60) obtém a honra da “Apresentação” de Otto Maria Carpeaux (1978: 11-12) e o incentivo da editora Paz e Terra, na sua então 2ª edição de 1978.
Trata-se portanto de estudo crítico imprescindível aos pesquisadores mais exigentes e minuciosos da poética de Augusto dos Anjos, posto que abre fendas polêmicas e inexplicáveis quanto aos aspectos moderno, pós-moderno e concreto existentes nos versos de toda a poesia do Eu e das três fases supras, contribuições exclusivas de Ferreira Gullar.
A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos é o livro de Lucia Helena (1984: 7-132) que traz recomendada contribuição em torno da poética augustiana porque parte de conceitos filosóficos aristotélicos e socráticos. Além, ainda, de aproximar o glossário do poeta às teorias científico-filosóficas, também, de pensadores modernos e contemporâneos como Hegel, Kant, Schopenhauer, Mircea Eliade, Georges Bataille, Gottfried Benn e Walter Benjamin. Trata-se de filósofos que norteiam a crítica literária da autora e pesquisadora. Contudo rejeita a idéia de que o poeta do Eu desenvolve em sua poesia conceitos científicos, limitando-se a um novo ângulo estético original. Observa ainda que tal estética de Augusto dos Anjos apresenta tensão, alegoria e ruína semelhantes e, às vezes, mais fortes do que em Gregório de Matos, Osvaldo de Andrade e Mário de Andrade.
Pontos esses que vão reafirmar tal ângulo novo e caráter excêntrico quando Lucia Helena (1983: 45-67) faz o ensaio “Ruína e Alegoria em Augusto dos Anjos” noutra obra também sua, tratando sobre Uma literatura antropofágica. Trata-se da tese, que reforça essa idéia de Lucia Helena (1983: 15-151) com maior intensidade, quanto ao aspecto original da poética augustiana ter sido pioneira nos paradoxos e novos paradigmas do canibalismo e da antropofagia bem antes dos poetas de vanguarda da Semana de Arte Moderna de 1922.
O pré-modernismo é um livro de Alfredo Bosi (1967: 9-158) vol. V, da coleção A Literatura Brasileira, pela Editora Cultrix, em que dentre outras análises de autores brasileiros considerados pré-modernos, também, dedica o capítulo II à obra de Augusto dos Anjos.
Alfredo Bosi (1967: 41-51) abre esse estudo com uma espécie de revisão à luz de análises biográficas de Órris Soares, Agripino Grieco, Antônio Torres, Gilberto Freire, Álvaro Lins, Cavalcanti Proença, Antônio Houaiss e Horácio de Almeida; faz uma leitura baseada em sua própria formação crítico-literária, embora realizando incursões filosóficas, científicas e sociais; e por fim, encerra fechando com uma posição de bom senso e bem abalizada, e se expressa na afirmação radical de que Augusto jamais deve ser entendido como um parnasiano:
“… Augusto dos Anjos nunca poderá ser incluído entre cultores de uma poética de arte pela arte entendida à maneira parnasiana. Seus processos artísticos são basicamente expressivos e projetivos, não diremos de uma filosofia, mas de angústias e obsessões que o poeta encontrava no mundo do próprio ‘eu’.” (Bosi, 1967: 51).
Após a rápida revisão supra, faz um comentário ousado, em torno da reputação da poesia de Augusto dos Anjos, no seu campo mais amplo de complexidade, leitura, análise e interpretação, conforme afirmativa que se segue:
“Augusto dos Anjos foi homem de um só livro: Eu, publicado em 1912, e cuja fortuna, extraordinária para uma obra poética, atestam as trinta edições vindas à luz até o momento que escrevemos.// Essa popularidade deve-se ao caráter original, paradoxal, chocante mesmo, de sua linguagem, tecida de vocábulos esdrúxulos e animada de uma virulência pessimista sem igual em nossas letras. Entretanto, fosse o léxico exótico, a única nota diferente desse livro, não teria ele recebido a atenção que a crítica mais inteligente e mais séria lhe dedicou e lhe tem dedicado.// Trata-se de um poeta poderoso, que deve ser mensurado por um critério estético extremamente aberto que possa reconhecer, além do ‘mau gosto’ de um vocabulário rebuscado e científico, a dimensão cósmica e a angústia moral de sua poesia.// Dimensão cósmica, em primeiro lugar. Augusto dos Anjos centrava, de modo obsedante, no ser humano, todas as energias do universo que se teriam, portanto, encaminhado para a construção desse mistério, que é o ‘eu’. O materialismo evolucionista de Haeckel parece encontrar sua transcrição poética em versos…” (Bosi, 1967: 44-45).
Assim, escolhe como exemplo dessa afirmativa, para fins de ilustração, o soneto “A Idéia”. Em seguida, complementa sua leitura, com vistas nos postulados do materialismo evolucionista, que se encontra no eco, ainda, do excêntrico, exagerado e obscuro romantismo, sublinhando o pessimismo filosófico de Schopenhauer e não o otimismo científico de Spencer e Haeckel:
“No entanto, a postura existencial do poeta lembra exatamente o inverso do cientismo naturalista: uma angústia funda, letal, diante da fatalidade que arrasta toda carne para a decomposição da morte. E já não será lícito falar em Spencer ou em Haeckel para definir sua cosmovisão, mas no alto pessimismo romântico de Arthur Schopenhaeur, que identifica na vontade de viver a raiz de todas as dores e de todos os males.// Funde-se a visão cósmica com o desespero radical, produzindo esta poesia violenta e nova em nossa língua:(…)” (Bosi, 1967: 45).
Com mais veemência, Alfredo Bosi exemplifica como questão fundamental de sua leitura augustiana, por meio do soneto “Lamento das Coisas”. Com isto, consegue trazer clareza para uma compreensão mais próxima dum poeta das mil faces do feio hugoano, formulando assim o inédito e o novo numa poética da transgressão.
Uma vez mais toma o caminho de uma possível não-classificação poético-literária de Augusto dos Anjos, entendendo-se aí, portanto, que o poeta esteja mais próximo de algo inclassificável no repertório das Literaturas de Língua Portuguesa.
Desse modo, o poeta já afirmasse em vida jamais pertencer ou filiar-se à escola qualquer, há quem entenda, nesta sua posição, certo charme ou modéstia afetada pelos ressentimentos inumeráveis de quem fora excluído das lides literárias da época. Neste sentido, convém, então, vermos as relações curiosas e outras revelações projetadas pela ótica bosiana no trecho que se segue:
“Se essa disposição de espírito é uma neurose cujos motivos radicam na doença, ou na fealdade, ou em amores irrealizados, não cabe a nós discutir. Quanto à situação cultural, a mera inserção histórica do poeta quer no Parnasianismo, quer no Simbolismo, revela-se inadequada: Augusto dos Anjos é um romântico lato sensu, como romântico é todo naturalista que busca dramaticamente o infinito na matéria, e romântica a fatal insatisfação por não achá-lo no que passa e morre. E o que será o Inconsciente senão a desejada entidade física e metafísica a um só tempo a que o materialismo romântico se apega para saciar sua sede de infinito?// Como Baudelaire (excluídos embora as profundas diferenças de espírito e de forma), Augusto dos Anjos canta a miséria da carne em putrefação; mas não há, no atormentado paraibano, nenhuma convicção estética amadurecida, nem, por outro lado, complacência satanista. Para o poeta do Eu, as forças da matéria, que pulsam em todos os seres e em particular no homem, conduzem ao Mal e ao Nada, através de uma destruição implacável; e ele é o espectador em agonia desse processo degenerescente cujo símbolo é o verme: (…)” (Bosi, 1967: 46).
É com esse saber que Alfredo Bosi apresenta sua análise da poesia augusteana, e focalizando alguns versos do poema “Psicologia de um Vencido”; os dois tercetos do soneto “O Deus Verme”; e outros versos, ainda, do poema notável “Queixas Noturnas”, que revelam um Augusto blasfemo em oposição clara e radical à crença de Cruz e Sousa. Complementando essas observações concretas, Alfredo Bosi reconhece ainda pontuações críticas positivas na poesia augusteana quando se refere a ela assim:
“O poeta de Eu é um poeta eloqüente. O dramático de suas tensões, que às vezes tende para o trágico do inelutável, encontra forma ideal em quartetos de decassílabos fortemente cadenciados, em que são copiosos os versos sáficos, de manifesta sonoridade, as rimas ricas e as palavras raras e esdrúxulas. São versos que ficaram no ouvido de gerações de adolescentes, pois de adolescentes conservam um quê do pedantismo dos autodidatas verdes, em geral acerbos e solitários.” (Bosi, 1967: 47-8).
Para aprofundar a sua leitura e recortar exemplos que lhe possam garantir coerência em sua análise, Alfredo Bosi prossegue com pequenos trechos ilustrativos, complementando praticamente sua teoria, que se amarra em versos do soneto “O Martírio do Artista”, e noutros de “Monólogo de uma Sombra”. Após formular um breve questionário, que aponta a problemática resultante da poesia de qualidade, bem como de outros gêneros e manifestações poéticos, orienta-nos, também, à questão de princípio e fundamentação da poética científica de Augusto, quando assim afirma:
“Em Augusto dos Anjos, a palavra científica e o termo técnico, tradicionalmente prosaicos, não devem ser abstraídos de um contexto que os exigem e os justificam. Ao poeta do cosmos em dissolução, ao artista do mundo podre, fazia-se mister uma simbiose de termos que definissem toda a estrutura da vida (vocabulário físico, químico e biológico) e termos que exprimissem o asco e o horror ante essa mesma existência imersa no Mal.” (Bosi, 1967: 48-9).
É curioso observarmos que sendo Alfredo Bosi um teórico com autoridade notável, sua análise aponta, também, um tom autodidata quando se refere à poesia, ao glossário e à palavra augusteana:
“Em todas as expressões, as realidades cósmicas e vitais acham-se vinculadas a qualificações depressivas ou, vice-versa, a substantivas que indicam o mal e a morte estão apostos adjetivos que lhes dão dimensões universais.// Um inventário minucioso apontaria as múltiplas formas forjadas pelo poeta para criar efeitos de paradoxo e de paroxismo, pois o contraste e a hipérbole são os pilares de sua expressão convulsa. (…) É fato, também, que, levado por sua hiper-sensibilidade sonora, algumas vezes o poeta cria efeitos musicais que tendem a valer por si mesmos, independentes (no que é possível) de sua função semântica. É o que justifica estudos minuciosos, como o de Cavalcanti Proença, que arrolou as numerosas aliterações e os numerosos jogos fonéticos de Augusto dos Anjos, indicando, também, com muita felicidade a filiação de certos ritmos à poesia de Cesário Verde e de Guerra Junqueiro.” (Bosi, 1967: 49).
Outro crítico tal qual Alfredo Bosi, que guardadas as devidas proporções e com raríssimas exceções até porque dá-lhe o estatuto de moderno, mas, também, considera Augusto dos Anjos um poeta do pré-modernismo, enquanto estilo de época, é Gilberto Mendonça Teles (1996: 7-434) em seu A escrituração da escrita: teoria e prática do texto literário. Neste livro, Gilberto Mendonça Teles faz comentário mais direcionado à poética de Cruz e Sousa no Desterro de Santa Catarina, atual Florianópolis. Para tanto, vejamos o que ele diz a esse respeito, embora tecendo considerações generalizadas em torno de autores, críticos e poetas elencados no repertório da literatura brasileira:
“Depois do poeta catarinense chega-se também ao silêncio: calam-se os recursos poéticos conhecidos na poesia do século XIX e alguns postos em relevo por Cruz e Souza vão atuar no gosto literário dos pré-modernistas, como no Eu (1912) de Augusto dos Anjos, na poesia tardia de Olavo Bilac (na Tarde, de 1919) e até na renovação do aprendizado poético de Manuel Bandeira e de Mário de Andrade.” (Teles, 1996: 144).
Antes desse breve comentário já inicia fazendo quase que um tratado de poética da vanguarda contemporânea, a partir de autores situados no início do século XX, a fim de contemplar verdadeiros gênios que foram excluídos da classificação aceitável pela crítica. Mesmo não citando nesta passagem Augusto dos Anjos, por certo ele está se referindo a poetas que tais, excluídos pela crítica corrente:
“Os críticos e historiadores dos grandes movimentos literários do fim do século passado, na Europa, preocupados com o que se denominará depois ‘estilo de época’ (dentro dos modelos positivistas da ciência literária dominante), não souberam dar os devidos valores a rupturas individuais de escritores como William Blake, Walter Whitman, Baudelaire, Lautréamont, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé. Com isto não puderam ‘prever’ o aparecimento das vanguardas e a fragmentação do discurso poético nos inícios do século XX. Era mais fácil escudar-se em conceitos gerais e vagos de parnasianismo, simbolismo, romantismo, decadentismo, nefelibatismo, de poesia pura ou de arte pela arte, do que ultrapassar o comum e descobrir o teor de inovação de cada um desses escritores.” (Teles, 1996: 143).
E mais adiante, ainda, tratando da performance dessa poética simbolista desde Cruz e Sousa a Bilac, além de ressaltar a questão da língua ser relativa e analítica, segundo Saussure, Gilberto Mendonça Teles assim também se refere à estética augustiana:
“Concebendo o mundo como uma vasta unidade simbólica, formada de micro-unidades essenciais, a inteligência filosófica, científica, artística e literária do fim do século passado (e das duas primeiras décadas do século XX) compreendeu o sentido da descontinuidade como meio de expressar o que se movia além da realidade empírica, como as formas do absurdo, do desconhecido, do inefável e das idéias que nunca se entregariam inteiramente de uma vez só, mas sim através de suas partes. Intuíam que a forma do conhecimento artístico era absoluta e sintética e que a língua (e Saussure vai dizer isto) é relativa e analítica. Daí a impotência gritada por todos os poetas, a começar com ‘As palavras de amor que morrem na garganta’, de Bilac, e a se completar com ‘o mulambo da língua paralítica’, como num famoso verso de Augusto dos Anjos. Tratava-se inicialmente de uma relação metonímica a que os simbolistas atribuíram valor unitário, expressando-a através da metáfora e elevando esta à condição de símbolo, quando não lhe deram função de anagogia, de condutora do pensamento às esferas mais altas da arte, da religião e do esoterismo.”
Vejamos como esse crítico assim faz essa alusão a Augusto dos Anjos, mesmo tratando de Cruz e Sousa a Mário de Andrade, no ensaio: “Do Polichinelo ao Arlequim”:
“É em nome da primitividade que Mário concebe a teoria de um verso novo, assintático, e apoiado na enumeração, onde a palavra se reduz a si mesma, objetivando-se em palavra-coisa e dando ao verso (e ao poema) um aspecto de descontinuidade, de imagem do caos no início da criação.// O processo estilístico da enumeração fraciona o universo, transformando a idéia da unidade universal em pequenas unidades descontínuas, assim como o verso construindo nominalmente, isto é, através da enumeração de palavras, transmite a sensação de outros esquemas rítmicos, de outro tipo de musicalidade que suscita mais a imaginação do leitor.// Obsessivo em Cruz e Sousa, o recurso se propagou durante o pré-modernismo, aparecendo na obra de Augusto dos Anjos, no último livro de Olavo Bilac e na formação do pensamento literário de Manuel Bandeira e de Mário de Andrade, inspirando neste a sua mais importante teoria sobre o verso, no “Prefácio interessantíssimo”, de dezembro de 1921, escrito um ano depois de haver feito a sua Paulicéia desvairada, publicada em 1922. E, mais tarde, já sob o gosto do surrealismo, vai influenciar a poesia de Jorge de Lima, como mostra Ledo Ivo, para quem ‘todo o Invenção de Orfeu é uma exaustiva e majestosa enumeração caótica.” (Teles, 1996: 175).
Gilberto Mendonça Teles escreve apresentando o livro de Montgomery José de Vasconcelos, A Poética Carnavalizada de Augusto dos Anjos, título de sua dissertação de mestrado:
“A crítica procura hoje recuperar o estranhamento que causou (ou teria causado) a publicação de um livro, em 1912. Um livro que simplesmente se chamava EU e no qual um poeta desconhecido, de nome apoteótico – Augusto dos Anjos – repetia e prolongava os ‘exageros’ estéticos do negro Cruz e Sousa. A retórica parnasiana, já estratificada não conseguia assimilar o sentido da nova poética, simbolista e satânica. Assim como não aceitaria os temas, o vocabulário e a esdrúxula estética do poeta paraibano. Este, por sua vez, retomava de uma maneira que parecia séria e trágica o espírito científico que se consagrara no conto, no romance e na própria história literária, aplicando-o, adequadamente ou não, ao discurso poético.”
Depois de sublinhar a influência de Augusto dos Anjos sobre os versos de Guerra Junqueiro diz Teles:
“Mas o estudo de Montgomery não se contentou em ver e timbrar o consabido a respeito da poesia de Augusto dos Anjos. Foi além e descobriu ou desenvolveu uma atitude estilística, da ordem do não-dito, que se deixava encobrir pela força da terminologia científica ativada pelo poeta. E soube pôr à mostra o desejo de subversão, o ritual do ‘destronamento’ (ou da dessacralização), a alegria de virar o mundo às avessas e de rir das coisas e dos acontecimentos, tal como Mikhail Bakhtin havia visto a sátira menipéia no processo de carnavalização da cultura ocidental.”
E conclui, estendendo a influência de Augusto dos Anjos até o Modernismo:
“E pôde ver assim a outra ‘face’ de Augusto dos Anjos – a diabólica – , a que, bem-humorada, nos falava de ‘carnavalescas alegrias’ e dizia que ‘A vida humana é uma ópera burlesca’ para, afinal, se comparar com uma borboleta, numa linguagem estilisticamente eficaz.// Adejo aqui. Adejo ali. Adejo/ Além… Nutro um desejo e outro desejo/ E, às vezes, faço bem e faço mal…// Polichinelos vis da Humanidade,/ Eu represento a volubilidade/ Das borboletas deste Carnaval.// Pelo que se vê – e se sabe – o polichinelo do soneto de Cruz e Sousa junta-se aos vários eus do EU do Augusto dos Anjos e vão todos eles confluir para os ‘trezentos e cincoenta’ Arlequins de Mário de Andrade que, por sua hora e vez, começa o processo de carnavalização de toda a literatura brasileira deste século.” (Teles, 1996a, prefácio e posfácio do livro: A Poética Carnavalizada de Augusto dos Anjos).
A “Apresentação” de Nilce Rangel Del Rio lê o Eu com tamanha precisão, disciplina, método, didática e pedagogia, a ponto de servir como consulta obrigatória à tese duma poética da transgressão em Augusto dos Anjos. Este ensaio em forma de “Apresentação” rangeliana é escrito em apenas quatro páginas que sintetizam um tratado de teoria e crítica literária em torno da poética angelina, e que por essa razão é também leitura obrigatória à fortuna crítica de Augusto dos Anjos. Além do que Nilce Rangel Del Rio investiga e denuncia “a pecha de reacionária” atribuída à poética angelina; faz minucioso relato sobre a situação social, política, econômica, cultural, filosófica e intelectual dos cânones da época de Augusto dos Anjos e a sua poética da transgressão “recheada de termos enredados” e “expressões escabrosas”.
“Ruína e alegoria em Augusto dos Anjos” é um dos sete ensaios brilhantes da pesquisadora Lucia Helena, quando trata com rigor teórico-crítico a questão antropofágica na literatura brasileira, a partir dum lampejo de maestrina somente seu, registrado em sua obra Uma Literatura Antropofágica. Livro de ensaios este que faz uma abordagem completa da antropofagia nessa análise triádica das manifestações de poética brasileira, permeando com mais precisão Gregório de Matos, Osvaldo de Andrade e Augusto dos Anjos. Neste ensaio, Lucia Helena faz uma condensação de algumas propostas doutro livro seu A cosmo–agonia de Augusto dos Anjos, publicado no Rio de Janeiro, em 1977, pela Tempo Brasileiro, acrescida agora da discussão do problema da obra de arte como ruína e alegoria. Trata-se de reedição revista e ampliada, mostrando caráter rigoroso em nível de autocrítica.
Augusto dos Anjos e a idéia de morte é um ensaio triádico de Pedro Lyra (1986: 154-159) que se respalda numa fortuna crítica de conceituada autoridade consentida, passando por Manuel Bandeira, Luiz Costa Lima, Alfredo Bosi, Lucia Helena, Ferreira Gullar, Zenir Campos Reis, Fausto Cunha e Darcy Damasceno. Pedro Lyra analisa a poesia de Augusto dos Anjos a partir de três pontos teóricos, a saber: “1) A oposição autovalorização x autodesvalorização; 2) A oposição atividade mental x atividade prática; 3) A oposição mortalidade x imortalidade”. Depreendo daí que tal leitura tenha cunho fundamentalmente estruturalista uma vez que nessa época havia no Brasil forte influência da crítica para tal teoria, emigrando tanto do próprio Ocidente, da parte de países da Europa, quanto do Oriente, partindo de teóricos da Rússia.
Há ainda indicações sobre o Eu nesse ensaio de Pedro Lyra que nos remete ao Índice Onomástico do seu livro O real no poético – (II) textos de jornalismo literário nas páginas 147, 65 e 52, que também tratam sobre Augusto dos Anjos no cenário da Literatura Brasileira. Ao concluir este ensaio o autor remete o leitor a outro sobre esse mesmo poeta numa nota descrita assim: “Este texto é uma retomada da conclusão do meu estudo ‘Quem tem medo de Augusto dos Anjos?’, que conquistou em 1968 o Prêmio Esso-Jornal de Letras para universitários brasileiros, publicado no Jornal de Letras (Rio, julho, 1968) e na Revista O Caboré nº 4 (Fortaleza, junho, 1969).
A poesia de Augusto dos Anjos, de Luiz Costa Lima (1977) é também uma análise fundamentalista das questões da teoria da literatura brasileira, no que tange às ideias do estruturalismo enquanto concepção teórica vigente no Brasil, nas décadas de setenta e oitenta. Essa corrente teórica, também, é introduzida para estudar a poesia estranha e inusitada do Eu. Esse ensaio aponta as imposibilidades de uma classificação literária clara e transparente, para o poeta do Eu, traduzida em escola ou estilo de época.
Trata-se de um dos estudos mais originais do Eu concernentes à visão do estruturalismo literário brasileiro.
Augusto dos Anjos, de Darcy Damasceno (1973: 307) refaz o percurso de “extremado pessimismo” dessa possível poética da transgressão augustiana, enquanto ensaio que aponta às dimensões desconhecidas no poeta do Eu. Darcy Damasceno (1968) mostra a convição duma influência de Baudelaire tão acentuada, que confessa dispensar quaisquer comentários e exemplificações sobre esta questão fundamental. Contudo, ainda observa as possibilidades de uma revisão à questão da classificação literária à poesia de Augusto dos Anjos, o que já aparece como uma luta sem causa ou sucesso, diante da crítica mais recente e ponderada, quando atenta ao crescimento de outras análises e ensaios sob os auspícios da pluralidade de um Paul Feyerabend (1993: 7-364) em seu Contra o Método. Trata-se de um método às avessas em que Paul Feyerabend (1993: 23-28) recusa a unidade cartesiana de O Discurso do Método por ser insuficiente à pluralidade de obras como o Eu e à sua poética.
Ivan Cavalcanti Proença em O Poeta do Eu faz uma transposição da realidade da linguagem complexa da poesia augustiana para a simplicidade lingüística e a limitação, em nível mesmo de ignorância, do leitor brasileiro. Leitor este representado por meio de pesquisas científicas como possível analfabeto se levarmos em conta que apenas 4 a 7% da população brasileira (160 a 200 milhões) têm acesso à educação em nível superior. O que seria, é, e parece ser por muito tempo uma triste realidade e um privilégio nefasto da minoria educacional brasileira: a elite do saber.
Esse leitor porém, se identifica com os níveis científicos e filosóficos dos versos decassílabos de Augusto dos Anjos, mais pelo lado da sedução fonética das palavras, em detrimento dos conceitos complexos aventados, e da intenção estética do poeta.
Uma poética da confluência, de Eduardo Portella (1984: 37-8) é um dos poucos ensaios que aponta o caráter da transgressão, do subversivo, do pós, do pré e do moderno em Augusto dos Anjos. O crítico insiste nessas peculiaridades da poesia do Eu, quando traz a público suas manifestações em diversos veículos da comunicação, bem como reeditando-as no jornal O Globo, no Rio de Janeiro, de 05-1-1974; 05-4-1974 e no periódico Obra, Discussão e Crítica num Centenário, por ocasião das comemorações dos 100 anos de Augusto dos Anjos, na Série IV Centenário, nº 2, João Pessoa em 1984. É como se Eduardo Portella quisesse propagar a convicção dessas idéias originais do poeta paraibano:
“Augusto dos Anjos se localiza numa peculiar encruzilhada do pós e do pré, entre elaborações retardatariamente românticas, parnasianas, simbolistas, a essa altura debilitadas, e esboços ou manifestações discursivos, prenúncios do modernismo. O Eu, e já não falo de outras poesias, e menos ainda dos poemas esquecidos, oportunamente esquecidos, se projeta como avatar de radicalização da modernidade, às vezes relutante face ao processo de profanização, às vezes entregue a uma espécie de descristianização, provavelmente de fundo nietzscheano://(…) A modernidade enquanto choque intelectual, dupla instância, declínio e aurora, não deixaria de se confundir com a decadência, na medida em que esta ‘emana de uma sensação de idade, de comportamento superporto, algo quase bizarro e até levemente cômico’. É quando a decadência se desvencilha da sobrecarga pejorativa, porque revela surpreendente amplitude imagística. O provinciano introvertido e depressivo, engolfado no ar decadente que se infiltra pela atmosfera do tempo, é contudo um marco da modernidade, logo balizada no modernismo — embora o precedendo e o ultrapassando — vem a ser o modo como o Brasil, paciente da crise espiritual ou criativa do século XIX avançado, desenha a maquete do próprio projeto cultural moderno. Os sintomas da decadência são antes sinais do esgotamento local do mundo burguês-liberal, virtuose do paradoxo, a uma só vez agônico e energicamente perquiridor.//(…) Não lhe falta sequer a perícia efeitista naturalística e massificadora. O que talvez explique o seu excepcional êxito de público. Ele não vacila em conceder à homogeneização ou ao estereótipo; em recorrer aos efeitos colaterais do melodrama e do kitsch; em mobilizar a sua precisa percepção do horror. O impiedoso tratamento do ‘eu’ individual impulsiona esse repertório de transgressões que, confluentemente, o erige no mais palpitante compêndio de insatisfação da virada moderna.” (Portella, 1984: 37-8).
O evangelho da podridão: culpa e melancolia em Augusto dos Anjos é o livro gerado de uma tese de doutoramento do Professor Francisco José Gomes Correia, pseudônimo Chico Viana (1994: 10-188) da Universidade Federal da Paraíba, publicada pela Editora Universitária/UFPB. Nesta sua tese, apresentando uma leitura de estilo sutil e com precisão na elegância à poética angelina, o Professor Chico Viana explora e atinge tanto a acepção quanto a concepção do signo-transgressão no Eu, quando permeia sua semântica objetiva e faz a reconstituição da idéia subjetiva dessa poesia anjosiana no trajeto do imoral, estético, ético e genético para os mistérios da existência do ser antes, durante e após a cena inaugural adâmica do paraíso perdido:
“O imoral, o transgressivo, pois, não é o prazer – mas o seu efeito. Nesta perspectiva, a contestação da sexualidade atinge uma dimensão profunda e radical, que ultrapassa o domínio do gozo físico. (…) O que nos interessa fixar por enquanto é a representação de uma origem pervertida que a sexualidade, enquanto ‘vício’, tende a perpetuar; do sexo como uma transgressão que, de certo modo, repete a transgressão primitiva, em função da qual o homem veio ao mundo.” (Viana, 1994: 78-80).
Chico Viana mostrou sua profunda preocupação sobre o signo-transgressão enquanto falta ao firmar-se nesta idéia como se fosse o seu único tronco seguro ou sua última tábua de salvação. Procedimento este tal como ocorre também com Augusto dos Anjos e seu orgulho maior do que o mundo, porque é o da dignidade humana do “orgulho humano” baudelaireano e “vidente” rimbaudiano.
“…Nós nos preocupamos com a falta que de certa forma, pelos tortuosos caminhos do inconsciente, enseja tal excesso. E pensamos em falta nos dois sentidos – o de carência e o de transgressão – que se vinculam, respectivamente, a melancolia e a culpa.” (Viana, 1994: 25).
“Augusto dos Anjos e o art nouveau” é um ensaio do renomado crítico José Paulo Paes (1985) que se encontra no seu livro Gregos & Baianos publicado em São Paulo pela Editora Brasiliense. Há também uma citação imprescindível de José Paulo Paes (1987: 5-28) sobre a falta duma definição da poética angelina que se encontra no ensaio de apresentação “Huysmans ou a Neurose do Novo” da obra Às Avessas de J.-K. Huysmans (1987: 5-273) editado pela Companhia das Letras em São Paulo. Em ambos ensaios José Paulo Paes tenta rastrear aspectos do pré-modernismo brasileiro e apontar caracteres de uma poética da transgressão também para o poeta do Eu, elevando-o ao mesmo podium literário de J.-K. Huysmans.
Trata-se ainda de que para José Paulo Paes, Huysmans, assim como Augusto dos Anjos na poesia, é o “marco zero da ficção art nouveau”. Desse modo, ambos têm o mesmo peso assim considerado em sua crítica, nessa parceria de ensaios: Augusto dos Anjos e J.-K. Huysmans, uma espécie de “evangelho do estetícismo”. José Paulo Paes ainda reconhece que para esses autores está por ser feito um estudo definidor no campo da literatura, contemplando-os assim a partir mais do que um simples “evangelho da podridão” usa “evangelho do esteticismo”.
Apologia de Augusto dos Anjos e outros estudos é um livro de ensaios do crítico cearense F. S. Nascimento (1995: 17-22) que traz a abordagem de dois estudos sobre a poética augustiana logo em sua “Primeira Parte – Apologia de Augusto dos Anjos; – Augusto dos Anjos: um modelo de inversão estética”. Esse livro de ensaios que dá destaque à poética de Augusto dos Anjos tem também um fato curioso em sua ficha técnica: apresenta outros autores e críticos da poesia augustiana como se fosse um movimento em prol do Eu.
Ainda nesse livro em que F. S. Nascimento (1995: 23-27) desenvolve dois ensaios sobre a poética augustiana, temos, de saída, duas críticas consideráveis. No primeiro estudo, que dá nome ao mesmo livro, “Apologia de Augusto dos Anjos” há uma homenagem ao maior admirador cearense do poeta paraibano — (Antônio Martins Filho) — considerado por Nascimento, também, o mecenas de sua publicação por ocasião de ser Reitor da UFC. De tanto admirar o Eu do “Baudelaire paraibano” Martins Filho chegou até a publicar um livro chamado Reflexões sobre Augusto dos Anjos, pela editora Forense Universitária, no Rio de Janeiro, em 1989. Já no segundo ensaio “Augusto dos Anjos: um modelo de inversão estética”, Nascimento defende a tese de uma “teoria biológica” em detrimento da “tese antropofágica” defendida pela crítica de Lucia Helena.
Reflexões sobre Augusto dos Anjos é um livro de admiração às idéias pessimistas de fundo filosófico augustiano, todavia assentado em bases sólidas da filosofia de Schopenhauer, portanto revelação duma possível influência do “Baudelaire paraibano” à luz do seu autor Antônio Martins Filho (1989) já referendado como mecenas de F. S. Nascimento e por ele mesmo dum possível movimento difusor da poética augustiana no Nordeste, em especial, no Ceará.
Todos os sonetos/Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos. Trata-se de livro publicado com a organização e notas de Sergio Faraco (1997: 3) que busca originalidade à produção de sonetos do poeta. Há ainda uma nota de considerável relevância do organizador desse livro na última capa sobre uma possível crítica da poesia de Augusto dos Anjos:
“A crítica do início do século ignorou Augusto dos Anjos. Se alguma exceção se abriu foi para reputá-lo autor de versos estapafúrdios e aberrantes. Nas décadas seguintes, impôs-se o reconhecimento público, que faria de Augusto o que ele é hoje, um dos mais admirados poetas brasileiros. E, por certo, o mais original, como se depreende da leitura deste volume – seus sonetos completos.”
Augusto dos Anjos sua vida sua obra é uma publicação de João Trindade e Marinalva Freire da Silva (1985: 1-33) que contém dois ensaios críticos desses autores paraibanos, membros da Academia Paraibana de Letras, quando lhe fazem homenagem por ocasião das comemorações dos 400 anos da Paraíba. Essas homenagens destacam expressões de relevo ao seu poeta Augusto, por meio do primeiro ensaio “Augusto dos Anjos – Breve Itinerário”, de João Trindade (1985: 1-17), e do segundo ensaio “Perfil de Augusto dos Anjos”, de Marinalva F. da Silva (1985: 19-33). Ressalto que em ambos há notas de reivindicação à modernidade dos versos do poeta da transgressão, Augusto dos Anjos, como traço imprescindível de revisão a ser feito para indicação do Eu aos currículos dos estudos didáticos de Literatura Brasileira, bem como em suas séries referentes aos níveis de 1º, 2º, 3º e 4º graus da Educação Nacional.
Augusto dos Anjos e a frustração de não ser político é um ensaio-discurso de Marcus Odilon (1984: 11-24) que, mesmo em tom pomposo, mostra o projeto coletivo e de crítica social do poeta ao sistema político e econômico do Estado Brasileiro. O autor mostra essas vertentes e veredas por meio da luta intelectual que empreendera o poeta desde o momento que proferira no Teatro Santa Rosa, também, discurso em favor da Libertação dos Escravos, no Brasil, sob os aupícios da Lei Áurea, mas sobretudo iniciado pelos ideais revolucionistas de Tobias Barreto, um de seus pares na Escola do Recife. Trata-se duma intervenção da retórica política local no Eu como “Discurso pronunciado pelo deputado Marcus Odilon (PMDB) em Sessão Especial realizada pela Assembléia Legislativa da Paraíba, no dia 29 de Maio de 1984, dentro das Comemorações ao Centenário de Nascimento do poeta Augusto dos Anjos.”
Augusto dos Anjos – “Eu” – Tu – Ele – Nós – Vós – Eles, de Fernando Fortes (1977: 6-28) é um livrinho de bolso e de crítica filosófica direcionados ao leitor jovem, cujo autor e crítico mostram, também, o projeto coletivo da poética augustiana por meio da expressão “identificação coletivo-projetiva”. Trata-se pois duma espécie de redenção crítica e filosófica nos dois sentidos, primeiro: tenta levar a juventude à leitura do Eu, a fim de que esta lhe descubra a verdade filosófica duma poesia da transgressão, veiculada no diálogo socrático do poeta Augusto dos Anjos, e segundo: aponta um lugar ao sol à poesia da transgressão augustiana.
“Peirce, Lacan, Bakhtin and Augusto dos Anjos: semiotic equidistances”, de Montgomery José de Vasconcelos (2000: 1-10) é um ensaio apresentado em comunicação no VI Congresso Internacional da Associação para Estudos de Semiótica, realizado em Guadalajara-Jalisco, México, jun./97c, e publicado posteriormente em versão para CD-Room. Trata-se de análise e interpretação da poesia de Augusto dos Anjos visando à compreensão do conjunto de sua obra completa por meio de leituras triádicas díspares da semiótica peirceana, psicanálise lacaniana e filologia bakhtiniana. Além ainda de vislumbrar a propagação duma possível leitura da poesia transgressora do poeta do Eu.
“The carnivalized poetics of Augusto dos Anjos”, de Montgomery José de Vasconcelos (1997b: 497-500) resulta de resenha crítica para o seu livro A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos, e foi apresentada como ensaio em comunicação por ocasião da realização do V Congresso Internacional da Associação para Estudos de Semiótica, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos da América do Norte, a 16-6-1994, com publicação posterior pela Mouton de Gruyter, em Berlin – New York, visando à propagação da poesia transgressora do Eu, e versando sobre o carnaval, a festa da carne, a transgressão excelsa da humanidade na visão do poeta Augusto.
“A estética de Kant e a poética semiótica de Augusto dos Anjos” é outro ensaio de Montgomery José de Vasconcelos (1999: 97-115) publicado pela Revista Apg/PUC-SP, em São Paulo. Trata-se de leitura dos versos augustianos à luz da filosofia moderna kantiana e semiótica peirceana, contemplando a poesia do Eu numa possível interpretação do seu caráter transgressor.
“Peirce, Lacan, Bakhtin e Augusto: eqüidistâncias semióticas” também se trata dum ensaio de Montgomery José de Vasconcelos (1998: 129-151) publicado pela Revista Apg/PUC-SP, em São Paulo, com vistas ao exercício duma possível leitura que contemple a compreensão da transgressão na poesia de Augusto dos Anjos à luz das teorias díspares dos críticos que lhe fundamentam para o Eu.
“A ecologia na poesia carnavalizada de Augusto dos Anjos” é outro ensaio publicado por Montgomery José de Vasconcelos (1994: 223-226) nos Anais-Apg/UFSCar-SP, por ocasião da realização de Congresso da Pós-graduação do Estado de São Paulo. Trata sobre a visão naturalista da poesia do Eu, mas também vislumbrando uma possível interpretação de sua transgressão via a teoria da literatura carnavalizada de Bakhtin, que se traduz, por sua vez, no caráter transgressor do Eu augustiano.
É de importância fundamental que eu faça agora um elo entre essa “Fortuna Crítica” e a poética da transgressão de Augusto dos Anjos, que se instaura, também, sob o signo do caos, diante das “Literaturas de Língua Portuguesa”, incluindo-se aí o conjunto de críticos em teoria da literatura, que acabamos de ver. Para tanto, convém que eu observe atentamente o estudo “Caos e Semiótica”, de Jorge de Albuquerque Vieira (Face, 1996: 62-82). Neste ensaio, o seu autor parte da física contemporânea e da teoria da informação para ler as teorias sobre o caos e suas relações com o determinismo, sob o enfoque da semiótica peirceana. Com algumas restrições, também, a poética de Augusto dos Anjos apresenta um possível caos determinista. Por isso vou apontar alguns trechos desse ensaio “Caos e Semiótica” para fundamentar a tese que aqui proponho, também com base na proposição vieiriana em seu limiar, a saber:
“Semiótica, a ciência geral de todos os signos e processos de comunicação, emerge neste século como uma das principais ferramentas para o estudo e conseqüente domínio sobre o problema da complexidade. Seu caráter geral e amplo, próximo ao de uma Ontologia, torna-a adequada a todas as tentativas de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Também neste século assistimos à emergência de novos paradigmas, todos eles envolvidos com a questão da complexidade e geralmente delineados contra um fundo, também genérico, do que poderíamos chamar uma proto-Teoria Geral dos Sistemas.” (Vieira, Face,1996: 63).
Consiste pois esta passagem em provar a importância fundamental às pesquisas em torno de quaisquer objetos e níveis nas demais áreas do saber, que se devem utilizar do escopo da semiótica peirceana, inclusive no estudo do caos e em suas manifestações as mais diversas, também, no campo da poética. Deste modo, convém ainda que eu observe como o autor desse ensaio teoriza o caos, em parceria com outros teóricos como Papavero, Bunge e Crutchfield, o que, para mim, é princípio fundamental na compreensão da poética augustiana. Assim, vejamos o conceito de caos norteador, ao fazer seu o saber doutros autores citados, como autoridade consentida quando nos diz:
“O termo ‘caos’ é conhecido desde os tempos antigos, em sistemas filosóficos que remontam à origem do conhecimento sistêmico humano. O termo é usado por Hesiodo, sob forma poética, como sendo a origem de tudo que existe (caos, ‘abismo sem fundo’). A filosofia pré-socrática partiu da idéia de que os fenômenos podiam ser explicados pela razão, sem a necessidade de invocar causas sobrenaturais e de que todas as coisas da natureza provêm de um princípio comum ou ‘arché’. Este, para Anixamandro, discípulo de Thales, é indeterminado, o apeíron; estas idéias são baseadas no caos originário de Hesiodo (Papavero, N.,1986).” (Vieira, Face, 1996: 63-64).
Existe, portanto, uma fundamentação complexa de autoridade no estudo do caos, quando se manifesta em produções que não se encaixam em determinadas escolas, normas, regras e conceitos clássicos:
“O termo foi utilizado ao longo de todos os séculos posteriores, de evolução do conhecimento humano, atingindo nosso século com uma formulação precisa no âmbito das modernas ciência e ontologia. Na ontologia científica de Bunge (1977: 209), por exemplo, um fato é dito caótico ‘se e somente se nenhuma medida de probabilidade pode ser definida nele’. Caos é distinto de ‘aleatoriedade’, já que esta é um tipo especial de ordem, um caso especial de ‘éstocasticidade’: caos, neste contexto, significa ausência de lei, ou seja, não há a presença nem de leis probabilísticas. Na ontologia deste autor, caos é algo concebível mas que não podemos encontrar na natureza – fatos caóticos não podem compor-se para formar um fato real. A realidade seria em grande parte estocástica, mesmo aleatória, mas não caótica, sem lei (Bunge, 1977:210).(…) Em nosso trabalho, como já foi dito, cuidaremos de acepção mais recente do termo, o chamado ‘caos determinista’, ou seja, uma forma de processualidade de aparência caótica, no sentido anterior, mas que contém, de forma subjacente, uma lei (ou como alguns dizem, ‘ordem’). Uma adequada definição deste tipo de caos é dada no contexto da citada Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Um sistema dinâmico (Crutchfield, P., e col., 1986:46) é aquele que apresenta um estado inicial (uma informação essencial acêrca do sistema) e uma dinâmica (uma regra que descreve como o estado evolui com o tempo).” (Vieira, Face, 1996: 64).
Essa reflexão é esclarecedora quanto à transgressão poética de Augusto dos Anjos, traço característico seu, com exclusividade nas literaturas de língua portuguesa, uma vez que ele é único, original e imprevisível nesse formato, ao que hoje pode aplicar-se a teoria do caos. Precisarei tomar algumas precauções nessa teoria do caos, como alertam-me Vieira e à questão de ser a poesia e a prosa de Augusto dos Anjos uma poética da transgressão. Mas, acima de tudo uma poética da transgressão, também, sob o signo do caos, porque se instaura na ausência de lei.
Essa poética, direta ou indiretamente, vem influenciando as manifestações artístico-populares de raízes aprofundadas, divulgadas, impressas e timbradas na cultura do Nordeste do Brasil. Contudo, mais preciso e curiosamente na comunicação cultural de jovens artistas, em geral, aqueles que produzem a arte do underground, cult, techno, dark, hippye, hip hop e sociedade alternativa. Em suma, uma poética que requer um estudo mais rigoroso e preciso, a fim de aproximar e esclarecer produções complexas, de pluralidade oposta à unidade, e que também o caos as subsidiaria.
Manifestações essas que surgem por meio de poética oral e sonoro-visual, na cultura popular e de massa, assim entendidas: música popular brasileira, teatro popular, literatura popular dos poetas de cordel, cantadores, repentistas, pelejadores, humoristas e demais artistas, cantores, compositores, atores, escritores, grupos e intérpretes. Portanto, manifestações, também, de poética que se expressam de forma contemporânea, mas obedecendo às regras e seguindo-as com base em performance e nuanças, também, suas.
Ressalto Pedro Osmar como poeta de performance remanescente do Eu paraibano. Trata-se de pioneiro radical da vanguarda (aos moldes dum Augusto dos Anjos com a sua poética da transgressão) do movimento musical paraibano Jaguaribe Carne. Além do que, foi quem organizou, arregimentou os compositores independentes e excluídos da indústria radiofônica, televisiva e de todos os segmentos da mídia privada, pública e oficial, a partir da década de 70, no Estado da Paraíba. Contudo, ainda, vem dando continuidade a esse trabalho hercúleo, sem quaisquer apoios, quer institucional, público, privado quer interinstitucional. Trabalho esse imprescindível à cultura, que faz por meio duma produção totalmente independente e aliado a uma das mais audaciosas parcerias: artistas locais de vanguarda e excluídos social, econômica, política e culturalmente.
Além, ainda, dessas expressões contamos com outros representantes da arte poética, também, oral e sonoro-visual, denominada pela crítica especializada como underground. A exemplo disso temos toda a produção de Antônio Nóbrega, em especial os seus recentes musicais Madeira Que Cupim Não Rói e Pernambuco. Bem como, a poética doutro artista de literatura popular, em forma de cordel, ainda no vivo estilo, também, underground de Bráulio Tavares com o seu Trupizupe o Raio da Silibrina. Tal underground propaga-se ainda pelo som revolucionário do Barão Vermelho, banda de rock carioca que se consagra na influência das canções e baladas de protesto do falecido cantor-poeta Cazuza.
Eis Cazuza, poeta em carreira solo fazendo crítica, como Betinho na estética social, em sua composição “Brasil mostra a sua cara”, concluindo-a com chave de ouro na frase: “Pátria desimportante em nenhum instante eu vou lhe trair”. Quem sabe influência ou coincidência em Augusto dos Anjos? Mas a verdade é que em “Ode ao Amor”, uma espécie de poema, Augusto dos Anjos, na transgressão de sua poética, quebra as normas clássicas ao ir de encontro aos cânones de sua época. E sendo ainda mais radical do que Cazuza, que por certo saciou a sede na fonte inesgotável da poética da transgressão augutiana, que por sua vez ainda abastece a poética brasileira e a vanguarda nacional, compondo esses versos de revolução, guerrilha e terror, disfarçados no tema sobre amor:
Sonham pátrias doiradas de ilusões
Entre os tórculos negros da Desgraça
— Flores que tombam quando a neve passa
No turbilhão das avalanches bravas!
(Anjos, 1994: 452).
Ao lado dessas referências temos outros intérpretes similares com o mesmo protótipo e/ou arquétipo “do poeta maldito” Augusto dos Anjos, segundo José Escobar Faria (1994: 142) em seu ensaio “A Poesia Científica de Augusto dos Anjos”. Trata-se dos performeres José Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho e dos inquietos poetas Arnaldo Antunes, líder vocalista outrora da banda paulista Os Titãs, o finado Renato Russo, da banda Legião Urbana, de musicalidade sofisticada, mas, também, já desfeita. Além, ainda, do underground da mineira banda Sepultura e na irreverência musical de bandas como a santista Mamonas Assassinas, esfacelada em acidente aéreo, a desfeita banda paraibana Os Raimundos, seguindo esse estilo também underground, mas com uma interpretação afetada e escrachada, apontando à sátira e à ironia. Mesmo guardadas as proporções de que são letras musicais jamais versos e prosas duma poesia científica, mas com marcas inconfundíveis do estilo transgressivo de Augusto.
Arnaldo Antunes desde quando era líder vocal da banda paulista Os Titãs já apresentava influência da poética da transgressão de Augusto dos Anjos. Isto porque também compunha alimentado por um vocabulário científico como o do poeta do Eu, além de ainda ter consagrado certa poética hipocondríaca ao versar sobre um glossário de enfermidades congênitas em poesia de letra musical, que lhes deu notoriedade, excentricidade, renome e originalidade no meio artístico, destacando seu disco Õ Blesq Blom de 1989 pelo selo WEA:
“O pulso (1989)
Marcelo Fromer / Tony Bellotto / Arnaldo Antunes
O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Peste bubônica câncer pneumonia
Raiva rubéola tuberculose anemia
Rancor cisticercose caxumba difteria
Encefalite faringite gripe leucemia
O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Hepatite escarlatina estupidez paralisia
Toxoplasmose sarampo esquizofrenia
Ulcera trombose coqueluche hipocondria
Sífilis ciúmes asma cleptomania
O corpo ainda é pouco
O corpo ainda é pouco
Reumatismo raquitismo cistite disritmia
Hérnia pediculose tétano hipocrisia
Brucelose febre tifóide arteriosclerose miopia catapora culpa
cárie câimbra lepra afasia
O pulso ainda pulsa
O corpo ainda é pouco”
Assim, convém que eu ressalte as palavras de José Miguel Wisnik (2001: 15-19) em torno da poética de Arnaldo Antunes em Prisma inverso:
“A poética de Arnaldo Antunes, que também forja uma linguagem própria para as suas necessidades, em vez de utilizar simplesmente os expedientes comuns da canção, pode ser correlacionada com as mesmas questões, das quais oferece novamente um prisma inverso (prisma que a afasta por sua vez, pelo avesso do avesso, do ponto de vista blasé). O individualismo potencializado, ao mesmo tempo que anulado num ninguém que se confunde com a massa das coisas, é assumido escancarada e afirmativamente, em sintonia com a corrente nervosa e veloz do ambiente ultra-urbano. ‘Uma pessoa/ ninguém/ nenhuma pessoa/ ninguém/ uma pessoa/ ninguém/ também/ numa pessoa’ (‘Ninguém’).” (Wisnik, 2001: 18).
Não bastasse, tal poética de Augusto dos Anjos transitar desde essas manifestações culturais do Nordeste, mas, também, ter por sua vez sofrido, inclusive, a influência lírico-trágica de Edgar Alan Poe e clássico-dramática do poeta e dramaturgo William Shakespeare. Influência esta grassando-lhe, também, o Eu, em especial, por meio de idéias, reflexões do Rei Lear e pseuda loucura do Hamlet, que tanto o impressionou nos temas de seus sonetos, nas expressões “falas de amor”, “podridão da carne”, “corrupção do poder”, “traição e sexo”, formando assim o grotesco e escatológico: “verme”, “escarro”, “vômito de tuberculoso”. Mas, ainda, de certa forma às avessas e/ou arrevesado, por meio até da inversão da Love Story Romeu e Julieta, nos versos decassílabos de “Idealismo”:
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
E’. E é por isto que na minha lyra
De amores futeis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amal-o?!
Quando, si o amor que a Humanidade inspira
E’ o Amor do sybarita ou da hetaïra,
De Messalina e de Sardanapálo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique immaterialisado
—Alavanca desviada do seu fulcro—
E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulchro para o teu sepulchro?!
(Anjos, 1912: 43).
Num Sábado, a 27 de agosto de 1994, o Jornal A Folha de S. Paulo publica matéria em torno da possibilidade de se realizar um projeto audacioso da editora Nova Aguilar, querendo esta lançar a Obra completa de Augusto dos Anjos como edição clássica em capa dura e com papel bíblia. A reportagem veio a público com um título singelo, simples e comum para o esperado, “Augusto dos Anjos é o próximo”, quando deveria ser o contrário, posto que a tônica é, também, ao mérito do poeta-autor e não apenas dessa editora que se reergue das cinzas, como se fosse uma fênix, após longo afastamento do mercado de publicação brasileira em níveis críticos de obras clássicas nas mesmas edições luxuosas:
“É surpreendente. Comecei pelos brasileiros, mas estou querendo retomar a coleção portuguesa e de literatura universal no ano que vem”, diz Isabel Lacerda, que já trabalhava há dez anos na editora Nova Fronteira.// Além dos mencionados, a Nova Aguilar lançou também a obra completa de Cecília Meireles na série brasileira, de capa verde. Após Guimarães Rosa, está prevista a publicação de Augusto dos Anjos no final de outubro, uma edição crítica a cargo de Alexei Bueno, com vários inéditos.” (Folha de S. Paulo, 27 ago.,1994, Ilustrada. 4º Caderno B, pp.1-3.).
Vem a público também a matéria de Paula Diehl (1997: 4) em especial para a Folha: “Augusto dos Anjos é lançado na Alemanha”, com destaque no lide de Literatura, em vermelho, e com o seguinte teor: “Eu e Outros Poemas”, coletânea do poeta paraibano, tem edição bilíngüe publicada pelo ICBRA”, no caderno “Ilustrada”, 4-7, desse mesmo jornal Folha de S. Paulo:
“O Instituto Cultural Brasileiro em Berlim, ICBRA, está publicando uma coletânea dos principais poemas do paraibano Augusto dos Anjos.// “Eu e Outros Poemas”, primeiro e único livro do poeta, tem financiamento da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba e está sendo lançado em edição bilíngüe português-alemão.//Para apresentar a obra na Alemanha, o ICBRA trouxe da Paraíba o também poeta E. Merson, que fará uma introdução à poesia de Augusto dos Anjos, além de recitar trechos do livro “Eu e Outros Poemas”.// Para Merson, a publicação em edição bilíngüe é “um tributo de reconhecimento”. Segundo ele, em entrevista à Folha em Berlim, “não é pouca coisa o fato de Augusto ser traduzido e publicado na Alemanha”. “Augusto foi ignorado e desprezado por boa parte da crítica durante muitos anos.”// Além de apresentar e comentar o livro de Augusto dos Anjos, Merson também estará lançando em Berlim seu próprio livro, “Poemecito”. Para ele, seu trabalho foi influenciado desde o início pela obra de Augusto. “Augusto dos Anjos era uma presença permanente dentro de casa.”// Merson, que se identifica com o poeta paraibano, acredita que a falta de reconhecimento pela crítica da época, enfrentada por Augusto dos Anjos, se deva principalmente a sua originalidade.// “Augusto já era um fenômeno popular desde 1928”, conta ele. “É uma coisa muito curiosa porque, por um lado, ele foi acusado de ser cientificista, de usar termos incompreensíveis, só que há uma musicalidade na poesia de Augusto que ultrapassa toda e qualquer barreira”, acrescenta.// “Na minha casa, para se ter uma idéia, meus pais não tinham a escola primária completa e nada disso os impedia de sentirem-se absolutamente seduzidos pela poesia de Augusto. Essa música penetra e fica.”// A musicalidade dos poemas de Augusto dos Anjos talvez seja o maior desafio do trabalho de tradução para a língua alemã. Para coordenar o projeto, o ICBRA contou com a tradução de Helga Reeck e a supervisão do professor de literatura da Universidade de Hamburgo, Carlos Azevedo, escritor paraibano.// A edição bilíngüe de “Eu e Outros Poemas” tem uma tiragem de mil exemplares que serão distribuídos para entidades brasileiras e alemãs.// O ICBRA não vende suas publicações pois dispõe de um status jurídico que exclui atividades lucrativas. No entanto, o leitor interessado poderá ter acesso à obra de Augusto dos Anjos. “Nós podemos repassar alguns exemplares a preço de custo às livrarias interessadas para que o leitor comum tenha acesso ao livro”, explica o diretor do Instituto. Hiago de Oliveira Pinto.// A publicação teuto-brasileira de Augusto dos Anjos faz parte de uma política de divulgação cultural do Instituto que pretende difundir não só a produção literária e científica, mas também a criação musical do Brasil no exterior.// Nesse mesmo esquema de parceria com secretarias de vários Estados brasileiros, o ICBRA já publicou três livros e um CD que foram lançados este ano.// Até dezembro, Pinto ainda pretende trazer ao público alemão mais dois CDs que estão programados em eventos especiais. Um deles de música afro-brasileira planejado para o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.” (Folha de S. Paulo, 9 ago., 1997, p. 4. Ilustrada. 4º Caderno B: 4-7).
Interessante essa informação do projeto do ICBRA quanto à edição bilíngüe português-alemão da poesia de Augusto dos Anjos, e mais interessante como termina sobre projeto mais audacioso em torno da Consciência negra, posto que Augusto era também simpático a essa causa, tendo inclusive feito discurso proferido no Teatro Santa Rosa, na capital da Paraíba, por ocasião da comemoração da libertação dos escravos, por meio de atos constitucionais da Princesa Isabel, no Brasil, em favor da Lei Áurea e demais.
No dia 20/05/2000, difundindo as fronteiras internacionais da poética augusteana, por meio de publicação bilíngüe português-alemão, a ensaísta, tradutora, especialista em literatura alemã e professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Celeste Aída Galeão (2000: 6-7) publica “Rutilâncias em alemão”, no Caderno 4, Suplemento Cultural do Jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, que traz na sua capa em destaque principal este título: “EU Filho do carbono e do amoníaco em alemão”. Trata-se, também, duma colaboração imprescindível à poesia da transgressão de Augusto dos Anjos.
Saliento aqui que além desse estudo, no mesmo Suplemento, há ainda outro ensaio: “O mago das palavras bárbaras”, do austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux (2000: 8) crítico, ensaísta e historiador literário de renome por seus trabalhos prestados como colaborador à literatura universal. Este texto crítico seu foi extraído da página eletrônica Tributo a Augusto dos Anjos, via internet, provavelmente escrito em 1976, ano da publicação do ensaio de Ferreira Gullar, “Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina”, no seu livro Toda a Poesia de Augusto dos Anjos, Paz e Terra.
Embora trate doutras expressões da poética baiana esse suplemento abre mesmo a sua cena inaugural com a poesia de Augusto dos Anjos, sem dúvida a sua atração principal, mantendo o seu Eu ainda na forma original, em performance e nuanças vermelhas, por meio da silhueta do caráter magro e esquálido, mas vazado por palavras que o caracterizam assim junto à obra e à literatura brasileira:
“Augusto dos Anjos não teve sorte na vida. Ninguém o compreendeu, sua poesia nunca freqüentou os cafés de seu tempo, povoados de tipos afrancesados. É conhecido o desdenhoso chiste de Olavo Bilac, ao ouvir um soneto dele, logo depois de sua morte, lido por um raro admirador: ‘Fez bem ter morrido!’. Era uma época de trevas ao meio-dia. Quem salvou a fama póstuma do paraibano foi o povo do Brasil, corroborado pela crítica mais lúcida, o que comprova o recorde das 50 edições do EU (1912), seu único livro publicado em vida, com sua multidão de palavras bárbaras e inquietantes. Pois bem, Augusto dos Anjos foi agora traduzido para o alemão, justamente a língua de um alto poeta expressionista, Gottfried Benn, que ele jamais leu, mas com cuja poesia a dele é comparada.” (A Tarde, 20/05/2000: 1).
A importância dessa homenagem à obra do poeta paraibano, além de ser justa e característica dos críticos privilegiados e cultores doutros revolucionários poetas baianos, Gregório de Mattos e Castro Alves, faz uma descoberta com rigor científico, próprio do autor do Eu, ao aproximá-lo e compará-lo ao poeta expressionista alemão Gottfried Benn. Tal esforço e reconhecimento merecem atenção porque vêem além do visível e dizem algo próximo ao indizível. É como assim bem se nos mostra esse mais belo e nobre ensaio recente de Celeste Aída Galeão feliz ao abrir o seu “Rutilâncias em alemão” com a pérola rara da poesia brasileira, Carlos Drummond de Andrade (2000: 6) quem emite parecer incomparável de eminência e autoridade a respeito de Augusto:
“Li o EU na adolescência: e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, angastadas em decassílabos, palavras estranhas, como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia, zooplasma, intracefálica… E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do EU foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu a minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto dos Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira.” (Carlos Drummond de Andrade, apud Celeste Aída Galeão, Suplemento Cultural, Caderno 4: 6-7, jornal A Tarde, Salvador, Bahia, 20/5/2000).
Nesse ensaio, “Rutilâncias em alemão”, Celeste Aída Galeão (2000: 6-7) traz à tona uma espécie de auto-avaliação crítica, por meio de seu reconhecimento, de Augusto dos Anjos, quando o eleva à dimensão universal dos versos da poesia do Eu. Além de informar ao leitor tal dimensão a ensaísta vai mais adiante, como se fossem as vanguardas que dão à tônica das revoluções, ao estudar com profundidade a poesia da transgressão augusteana. Para tanto, ela parte do caráter da informação à formação dessa poética com vistas à educação de seu povo, que o reconhece assim em quaisquer situações, posto ser declamada pelo vulgo em via pública:
“SAIU RECENTEMENTE, na Humboldt 79, uma nota sobre a tradução para o alemão de 30 poemas do paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), pela primeira vez bilíngüe na Europa. Com esse livro, intitulado Monólogo de uma sombra/Monolog eines Schattens, uma edição modesta, de 127 páginas, o Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha (Icbra) iniciou a série “Literatura”, que pretende editar poetas “clássicos” do Brasil. Coube a Carlos Alberto Azevedo, romancista, ensaísta e cronista, que lecionou nas universidades de Berlim e de Hamburgo e agora vive no Brasil, em João Pessoa, a organização e seleção dos poemas traduzidos. (…) tradução alemã de Helga Reek (1) e revisão de Marli Woll-Tienes (2), consta um prefácio de Tiago de Oliveira Pinto, diretor do Icbra, apresentando a obra (…) um artigo de Carlos Alberto Azevedo, intitulado Augusto dos Anjos uma Poética da Morte?; um estudo de Anatol Rosenfeld, este exclusivamente em língua alemã. Seguem-se os 30 poemas bilíngües, subdivididos em EU (15), Outros poemas (8) e Poemas esquecidos (7) e um apêndice bastante útil, constando de pequeno glossário dos termos filosóficos e estrangeirismos, notas biográficas, dados sobre o editor, as tradutoras e nota editorial.” (Galeão, 2000: 6).
Mais adiante a ensaísta condensa uma síntese das características da poesia da transgressão augusteana em contraponto às mesmas do poeta alemão Gottfried Benn, segundo Anatol Rosenfeld, e partindo ela ainda das observações pertinentes doutro ensaísta, Carlos Alberto Azevedo, quando assim faz suas também as palavras dele nesse trecho que põe às claras a poesia do EU:
“Carlos Alberto Azevedo, para quem Augusto dos Anjos não foi apenas o poeta da morte, faz uma apreciação crítica e fundamentada das diversas tendências dos poemas por ele selecionados. Considera o poeta um filho espiritual da Europa, de onde reproduz idéias filosóficas por vezes mal assimiladas, e que tenta explicar o mundo pelo materialismo científico (Monólogo de uma sombra), mas transporta em outros poemas idéias de sabedoria oriental. Conclui, assim, que daí procede a visão-de-mundo tão sui generis de A. dos A., que foi, a seu modo, materialista, moralista, bramanista, budista e cristão.// Azevedo aborda ainda o problema da recepção literária de A.dos A., como um poeta que, não sendo cultuado pela elite social e intelectual, conseguiu, entretanto, tanta aceitação do povo, em seu tempo e até hoje, quando ainda emparelha-se em popularidade com os trovadores nordestinos e com Jorge Amado.// De Anatol Rosenfeld é transcrito o artigo publicado originalmente no Staden-Jahrbuch (vol.II/12, 1963/64, S.P.), em que faz uma aproximação exaustiva e procedente de A. dos A. com Gottfried Benn, poeta expressionista alemão, cuja obra Morgue foi publicada no mesmo ano da coletânea EU, do paraibano, 1912. Ambos têm uma “atração erótica” pela terminologia científica; em ambos impera uma poesia da decomposição, do necrotério, que disseca o homem, reduzindo-o a seus mais baixos componentes, ao animalesco ou ao inorgânico; em ambos “à unidade dialética de lirismo e ciência corresponde a atração polar entre o impulso místico e o intelectualismo”; ambos desconhecem o termo médio; em ambos o dualismo exprime-se na antinomia da escolha vocabular, na predileção pelos termos infra ou metahumanos (em A. dos A. da “podridão” à “monera” e à “noumenalidade do Não-ser”).” (Galeão, 2000: 6).
Mas é a partir dessas articulações em forma de tríades críticas que a ensaísta Celeste Aída Galeão (2000: 6-7) alcança a poética da transgressão augusteana, quando mais adiante elabora o perfil original do poeta paraibano, assentado em bases fundamentais de sua fortuna crítica da mais alta e ilibada reputação teórica, construída e levantada sob os auspícios doutros poetas congêneres, tais como Carlos Drummond de Andrade, Gregório de Matos e Castro Alves:
“Augusto dos Anjos, hoje considerado um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, é de genialidade singular, personalíssima, linguagem áspera, rascante, sombria e mesmo mórbida, visão-de-mundo materialista, enfoque pendular entre o cientificismo, preponderante em seu século XIX, e o misticismo. É ainda poeta filosofante que pondera, não raro sádica, sarcástica e ironicamente, o lado negativo da condição humana e do destino existencial, seu, de seus semelhantes e de todos os seres, visão de ateu e pessimista, para quem a vida é um escoar-se para a morte, para a fatal e podre decomposição da matéria. Apenas a arte, “a mais alta expressão da dor estética/ Consiste essencialmente na alegria”.// Por outro lado, é poeta de grande sensibilidade para a energia totalizante presente em todos os seres, momentos em que, decantando-a, torna-se sentimental. O conteúdo é expresso num vocabulário escorreito e altamente erudito, pomposo mesmo, o que de um lado surpreende e de outro talvez explique a grande admiração que despertou entre o povo: versos declamados em bares e restaurantes e sua única obra publicada em vida, EU, juntamente com Outras poesias, editada por seu amigo Orris Soares, em 1920, alcançando em 1998, a 50ª edição.” (Galeão, 2000: 6).
Na segunda-feira, a 12 de março de 2001, Ariano Suassana, colaborador do jornal Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, escreve sobre “O paraibano do século”, artigo em que conclama a todos a votarem no poeta do Eu, sem conter a sua euforia por meio dum ‘VIVA AUGUSTO DOS ANJOS’, iniciando assim a sua proposta generosa e ao mesmo tempo intrigante, uma vez que também concorre a esse título, contudo declarando seu voto e fazendo campanha ao seu oponente e artista conterrâneo de verso e prosa:
“A Escola do Recife, reunida em torno de Tobias Barreto e Sylvio Romero, teria um papel decisivo na criação da literatura nordestina e enorme influência sobre toda a literatura brasileira. Mas teria, também, grande importância pelo movimento pré-modernista que deflagrou e que, como terceiro episódio da Escola Nordestina, viria a dar origem a dois livros geniais e que se assemelham em vários aspectos: Os Sertões, de Euclydes da Cunha, e Eu, de Augusto dos Anjos. Na verdade, Os Sertões e seu autor pertecem à linhagem de Sylvio Romero; e Eu também resulta da Escola do Recife, porque a poesia de Augusto dos Anjos é que iria realizar tudo aquilo que a ‘poesia científica’ de Martins Júnior (discípulo de Tobias Barreto e companheiro de Sylvio Romero) sonhara e não fizera. Ambos são livros solitários, grandes, ásperos, arrevesados. Ambos padecem de cientismo. Ambos são livros de duende, para usar uma expressão de Garcia Lorca. O duende de todos dois é fúnebre, se bem que, aí, haja uma diferença, porque o duende de Augusto dos Anjos é mais noturno e esverdeado e o de Euclydes da Cunha é mais ensolarado e pardo, o que talvez, se deva às próprias diferenças que existem entre a mata e o sertão.” (Suassuna, 2001: 1-2).
Adiante Ariano Suassuna demonstra que a sua admiração pelo poeta Augusto dos Anjos é antiga, vindo agora, uma vez mais, reafirmá-la por ocasião impar da escolha da personalidade paraibana do século. Façanha arianiana esta peculiar, posto que levanta essa bandeira em prol, também, da poesia do Eu tão representativa quanto seu próprio autor, considerado um gênio pelo colaborador da matéria em questão. Daí que justifica o seu apelo explicando o motivo de tamanha necessidade à compreensão da obra de Augusto dos Anjos. E faz isto curiosamente por meio da transcrição de seu próprio texto em forma de prefácio à obra As Emboscadas da Sorte, de Maximiano Campos, um outro escritor amigo seu. Haja vista, ainda, disputar o mesmo título com Celso Furtado, e ambos em vida, concorrendo, também, com a expressão maior do Eu, Augusto dos Anjos, que mais sofreu injustiça e perseguição inumeráveis:
“…se resolvi reproduzir aquelas palavras em que fiz o elogio de Augusto dos Anjos, é porque a Rede Globo Nordeste está promovendo, em meu Estado natal, uma eleição popular para a escolha do paraibano do século. E, com grande alegria, recebo a notícia de que Augusto dos Anjos está ganhando a eleição, numa lista da qual Celso Furtado e eu somos os únicos vivos.//O fato, aliás, repete o que aconteceu com Augusto dos Anjos em vida e logo depois de sua morte: praticamente expulso da Paraíba pelos poderosos, sofreu as maiores dificuldades no Rio e em Minas. Não encontrou editor que o publicasse. Morreu tuberculoso, aos 29 anos, como professor, numa cidade do interior de Minas Gerais. E o único livro que nos deixou foi impresso às suas custas, com auxílio de um irmão, que juntou seus também parcos recursos aos dele.//Depois, foi a injustiça dos intelectuais, que o ignoravam ou desprezavam. Honra se faça a Órris Soares, único crítico a, de início, perceber sua importância, enquanto um culto, silencioso mas constante, lhe era prestado pela memória do povo, que nunca o esqueceu e cuja admiração, ao longo dos anos, causou edições e mais edições daquele livro estranho e poderoso para o qual os ‘intelectuais’ torciam o nariz.” (Suassuna, 2001: 2).
Daí que Ariano Suassuna reverencia também o ponto de vista do crítico José Paulo Paes:
“E esta não é, somente, uma opinião pessoal, minha. Veja-se, por exemplo, o que sobre nosso grande poeta escreveu José Paulo Paes no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira: ‘Em mais de um aspecto, Augusto dos Anjos constitui um caso na literatura brasileira. Em primeiro lugar, pela intrigante popularidade de Eu e Outras Poesias que, a despeito (ou por causa) da crueza dos temas e da rebarbativa linguagem científica, já alcançou mais de 30 edições, sendo de notar que só recentemente começou o livro a merecer a devida atenção da crítica. Depois, pela singularidade mesma de sua poesia’.” (Suassuna, 2001: 2).
Suassuna faz seu apelo com a competência de um juízo crítico e a clareza de seu bom senso em torno de uma escolha justa, transparente à sociedade paraibana, que a partir daí se isenta de quaisquer erros e injustiças à obra universal de um dos seus filhos mais dignos e honrados. Suassuna retoma as palavras do crítico José Paulo Paes fazendo-as suas e reforçando-as nesta conclusão própria dos poetas considerados as “antenas da raça”, segundo Ezra Pound:
“Quer dizer: não existe mais nem silêncio nem hostilidade. Alguns dos melhores críticos brasileiros começam a perceber a importância do grande poeta que o povo da Paraíba está repondo num trono que sempre foi seu. E esse é o caminho certo: na minha visão das coisas, títulos como esse devem coroar a cabeça de poetas, de romancistas, de dramaturgos ou de ensaístas. Se fôssemos chamados a escolher o espanhol ou o inglês do milênio, acho que ninguém teria dúvida: os eleitos seriam Cervantes e Shakespeare, porque os artistas são aqueles que melhor encarnam, resumem e simbolizam seus povos. Assim, peço às pessoas que eventualmente ainda pensam em sufragar meu nome, que se juntem a mim para votarmos em Augusto dos Anjos, a fim de que a Paraíba não deixe de dar a seu maior poeta o título de paraibano do século.” (Suassuna, 2001: 2-3).
É importante ressaltar que a poética de Augusto dos Anjos abrange dimensões ainda inesperadas, mesmo quando já estamos na passagem do século, que coincide com a virada também do milênio. E tal relevância reforça-se no fato de que essa poética inspira, também, a linguagem cinematográfica brasileira por meio da película Alma Corsária, produzido e dirigido por Carlos Reichenbach.
Alma Corsária tem como foco narrativo a paráfrase poética entre Augusto dos Anjos e Cesário Verde, mostrando os universos díspares de ambos: um brasileiro e outro português. Diretor este que se projetou na cinematografia nacional por meio do grupo de cineastas paulistas no chamado “cinema da boca do lixo”, e que se utiliza aqui dum trecho significativo do poema “As Scismas do Destino”, mais preciso interpretação dos versos 216 a 220; 229 a 232 e transcriação dos versos 217 a 220, para fins de roteiro ao seu Alma Corsária.
Ressalto que esses versos foram recitados para ilustrar o modo narrativo e temático-composicional da película cinematográfica por meio do diálogo das personagens Padrinho da Prostituta e Afilhada Prostituta do Padrinho Excêntrico, quando estabelece o roteiro poético-cinematográfico dos diálogos e/ou das falas:
Padrinho — “Prostituta! ‘Por tua causa, embóra o homem te acceite,
E’ que as mulheres ruins ficam sem leite
E os meninos sem pae morrem de fome!’ ”
(Anjos, 1912: 30, encenado In: Alma Corsária, 1995)
Em seguida, recita, por meio da fala dessa mesma personagem, os versos 229 a 232, da segunda parte do poema “As Scismas do Destino”, que se expõe em linguagem sonoro-visual do cinema:
Padrinho — “Oh! ‘Morte, ponto final da ultima scéna,
Fórma diffusa da matéria imbelle,
Minha philosophia te repelle,
Meu raciocinio enorme te condemna!’ ”
(Anjos, 1912: 30, encenado In: Alma Corsária, 1995)
E mais adiante, ainda, por meio dessa mesma linguagem como estética da podridão, recria a cena da poética augusteana, citando e recitando novamente a segunda parte do poema “As Scismas do Destino”, por meio dum exercício de transcriação conduzido pela linguagem dessa película cinematográfica sob os auspícios da técnica reichenbacheana, que faz a releitura, agora por meio da personagem principal, Torres, ator que interpreta Augusto dos Anjos. A performance desse estilo de cinema, em especial, “O evangelho da Podridão”, é um ato que vai reconduzindo-se às metáforas e à estética do escarro e/ou do grotesco já na cinematografia reichenbacheana:
Torres — “ ‘Prostituição ou outro qualquer nome,
Por tua causa, embóra o homem te acceite,
E’ que as mulheres ruins ficam sem leite
E os meninos sem pae morrem de fome!’ ”
(Anjos, 1912: 30, encenado In: Alma Corsária, 1995)
O próprio ator principal, que interpreta Augusto dos Anjos, sobressaltado, ao lembrar da fala da personagem Padrinho da Prostituta, assim reconhece a poesia de Augusto dos Anjos ali naquela linguagem do cinema a estética do escarro e/ou do grotesco.
Torres — “Mas isso é Augusto dos Anjos, como é possível?”
(Trecho encenado In: Alma Corsária,1995)
Na performance, da representação Alma Corsária, aparece outra intervenção da técnica cinematográfica, com ramificações einsensteineanas. Ainda na fala do Padrinho da Prostituta que se debate em diálogos entrecortados com Torres, interpretando aqui a inquietação poética do tétrico e grotesco de Augusto dos Anjos:
Padrinho — “Ainda não é tua hora”
Torres — “Procura outra alma livre”
(Trecho encenado In: Alma Corsária,1995)
Ao que de imediato, congela-se a tela num luto negro, vazio, vago e perdido em vão, no oco dum eco silencioso na imensidão do que seria projetado no branco neutro, desassistido de quaisquer tipos de ação:
Cf. Cesário Verde
Por fim, coincidindo com o encerramento do filme, temos o último monólogo da personagem suicida que assim se expressa por meio desses versos inspiradores de Cesário Verde:
Suicida — “Não desejemos nós os seus defeitos
Que os tísicos pereçam,
Pois temos ainda o culto pelos mortos,
Esses ausentes que não voltam nunca.”
(Trecho encenado In: Alma Corsária,1995)

Mas, encerra, em definitivo, com a máxima da poética filosófica de Cesário Verde, que assim se faz representar por meio de apenas um signo, tal como Augusto dos Anjos e seu Eu:
Evohé
A 15 de outubro de 1999, o ator Othon Bastos lançou um CD-Room com uma seleção significativa de poesias de Augusto dos Anjos, pela Editora EG. Produções Artísticas e Mercantis Ltda. Este renomado ator homenageou o poeta, coroando assim a fortuna crítica augustiana, também, agora, em recurso audiovisual. Neste CD, ainda, há, além de sua interpretação e representação impecáveis, 35 composições do poeta Augusto dos Anjos, antecedidas duma abertura e cronologia de sua biografia impressas em papel cuchê, com definição de altíssima qualidade e bom gosto. Também é curioso, relevante o fato de nesse CD vir impresso o depoimento de Carlos Drummond de Andrade sobre a poesia de Augusto dos Anjos, tal qual a epígrafe do ensaio de Celeste Aída Galeão.
Recentemente, às vésperas do Centenário do encantamento de Augusto dos Anjos, a 29/4/2014, Maria do Socorro Silva de Aragão organiza, com cerca de 1200 pesquisadores, um ciclo de publicações sobre a poética de Augusto dos Anjos, a saber:
1. Mesa de bate-papo: “Augusto dos Anjos, Cem anos de Encantamento” em Sapé-PB, 29/4/2014;
2. Augusto dos Anjos: a heterogeneidade do Eu homogêneo. João Pessoa: Editora/UFPB, 2012;
3. Eu, 100 anos de poesia: Anais – I Congresso Nacional de Literatura – I CONALI. João Pessoa: Ideia, CD, 2012;
4. LOPES, Paulo A. D. (Orgs.) “EU, cem anos de poesia”. Resumos – Congresso Nacional de Literatura: – I CONALI. João Pessoa: Ideia, 2012;
5. SANTOS, Neide M.; ANDRADE, Ana Isabel de S.L. Augusto dos Anjos em imagens: uma fotobiografia. João Pessoa: Ideia, 2010;
6. SANTOS, Neide M.; ANDRADE, Ana I. S. L. (Orgs.) Conversando sobre Augusto dos Anjos: uma história oral. João Pessoa: Ideia, 2009;
7. SANTOS, Neide Medeiros; ANDRADE, Ana Isabel de S.L. (Orgs.) Conversando com Crispim sobre Augusto dos Anjos: uma história oral. João Pessoa: Ideia, 2009;
8. SANTOS, Neide Medeiros; ANDRADE, Ana Isabel de S.L.(Orgs.) Memorial Augusto dos Anjos: uma visita guiada. João Pessoa: Ideia, 2008;
9. SANTOS, Neide Medeiros; ANDRADE, Ana Isabel de S.L.; BORGES, Francisca Neuma Fechine (In Memoriam). Augusto dos Anjos: uma biobibliografia. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2008.

1.2. Recepção virtual
Segundo Platão, Cibernética é a arte de pilotar navios e/ou governar o Estado. A expressão é de origem grega χυβεργητιχή (Isaac Epstein, 1986: 5) encontrada em Górgias 511 e Político 299. Já para Gordon Pask (1961: 6-7): “Cibernética é uma arte, uma tecnologia, uma ciência e uma filosofia.” Ainda na Introdução de Cibernética e Comunicação, organizado por Isaac Epstein, este teórico retoma o conceito de Gordon Pask:
“A cibernética é uma ciência nova, que, como a matemática aplicada, corta transversalmente os entrincheirados departamentos da ciência natural: o céu, a terra, os animais e as plantas. Seu caráter interdisciplinar emerge quando considera a economia não como um economista, a biologia não como um biólogo, e as máquinas não como um engenheiro. Em cada caso seu tema permanece o mesmo, isto é, como os sistemas se regulam, se reproduzem, evoluem e aprendem. Seu ponto alto é de como os sistemas se organizam.” (Epstein, 1973: 9).
De Platão até aos nossos dias esse conceito de Cibernética evoluiu como se houvesse uma transposição da realidade da linguagem do saber clássico grego à realidade da linguagem virtual de nossa era digital, na época atual e/ou convivência com as diferenças e a pluralidade, que sobrepuja a unidade cartesiana já como método amorfo na globalização.
Augusto temia a passagem dos séculos e o “malvado carbúnculo que mata”. Em seu “Poema Negro” deixa aquelas questões existenciais, que até hoje nos assombram:
A passagem dos seculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavallo de electricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade. (…)
A Morte, em trajos pretos e amarellos,
Levanta contra mim grandes cutellos
E as baionetas dos dragões antigos! (…)
Contra a aggressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros; (…)
Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste meu tempo de criança (…)
Déste-me fogo quando eu tinha sêde…
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!(…)
Que das ruinas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!
Parahyba — 1906
(Anjos, 1912: 108-112).
Na Rede Internet, obtenho inúmeras colaborações em nível de recepção da obra de Augusto. Trata-se de páginas criadas na internet por jovens duma tendência estranha e sob a influência radical do arcaísmo gótico e medieval. Mas, também, possíveis hackers duma nova teoria cibernético-digital da comunicação tecnológica, conhecidos como novos darks, hippyes, cults, technos e até outros da decadência do underground. São eles os remanescentes duma nova sociedade alternativa dos excluídos, porque se identificam, se expressam e se comunicam por meio da poesia da transgressão de Augusto dos Anjos. Daí, criaram (sites, homes pages) endereços e páginas eletrônicas, também, estranhos, exóticos, excêntricos e inusitados que elencarei assim, de saída, após esse intrigante concretismo dos Irmãos Campos na poética da transgressão virtual:
http://www.e-net.com.br/seges/har02.html, primeira página eletrônica que apresento nesta exposição de nossa era cibernética tratando sobre o Jornal da Poesia – Concretismo (Trabalho realizado pela equipe de Redação do Caderno Mais! – Folha de São Paulo, 08.12.96) em que um de seus precursores entrevistados, Augusto de Campos, respondendo à questão: “Movimento concretista dividiu a intelectualidade brasileira”, cita o poeta nesses termos:
“Um mau poema (concreto ou não) é um mau poema é um mau poema. Agora, as formas também se esgotam e se convertem em fórmulas. Há procedimentos da poesia concreta que já se exauriram e tendem à repetição. Mas ainda maior é a exaustão de formas e fórmulas do passado, que foram exercitadas ao longo de muitos séculos pelos maiores poetas de todas as línguas. O soneto é uma delas. Quem o quiser praticar, hoje, tem que se medir com Dante, Camões, Shakespeare, Mallarmé, Rimbaud, Hopkins, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos etc. etc. etc.” (Augusto de Campos, 1996: 3).
http://www.secrel.com.br/jpoesia/criti-aanjos.html, segunda página eletrônica que dispõe dos ensaios: “Augusto dos Anjos: O Soneto da Árvore – um poema ecológico ou um assassinato?”, de Soares Feitosa; “As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos”, de Horácio de Almeida. Trata-se de ensaio extenso sobre o poeta; “Augusto e a Árvore”, de Hélio Pólvora. Matéria do Jornal de Poesia acesso também pela http://www.secrel.com.br/jpoesia/polvra07.html a 18-7-98 às 18:36, 2 p., sobre uma aventura amorosa do poeta reprimida outrora no seio de sua própria família.
http://www.secrel.com.br/jpoesia/zenir01.html, terceira página eletrônica tratando sobre “O poeta do ‘Eu’ está mudando de público”, estudo de Zenir Campos Reis no Jornal de Poesia a 7-7-98 às 6:56, 5 p., que mostra a relevância das últimas publicações e edições da obra de Augusto dos Anjos, realizando crítica percuciente em torno dos acertos e falhas das produções recentes, clássicas e tradicionais. Publicado em O Estado de São Paulo no caderno 2.
http://www.orbita.starmedia.com/~montgomery/Augusto dos Anjos.html, quarta página eletrônica, de Montgomery José de Vasconcelos, sobre Augusto dos Anjos: o eu inclassificável na poética brasileira, concebida no dia 17-4-1999, visando à informação e à troca de material virtual. Apresenta um estudo em continuidade, no mesmo paradigma novo do interesse inusitado das comunidades jovens de rockeiros, punks, hip hops, darks, hippyes, remanescentes da sociedade alternativa e undergrounds, no estilo grotesco e original da poesia de mimese do poeta carioca independente Rogério Skailabe, que se identifica, também, em estilo, arrojo e agressividade com os versos da poética do pessimismo, irreverência e transgressão do Eu.
http://www.e-net.com.br/seges/satiro01.html, quinta página eletrônica tratando de leitura crítica e fundamental porque mostra a mudança e o desvio da vocação do poeta quando apresenta o ensaio “Augusto dos Anjos e a Escola do Recife”, de Flávio Sátiro Fernandes, no Jornal de Poesia. Trata-se de estudo voltado e preocupado com a formação fundamental do poeta que se deu na polêmica primeira Faculdade de Direito do país, a famosa Casa do filósofo brasileiro Tobias Barreto, daí o nome Escola do Recife.
http://www.elogica.com.br/users/agf/augusto.html é a sexta página eletrônica em que se mostra uma simplicidade eficaz no interesse e curiosidade de jovens quanto à poética de Augusto, inclusive, estudando o seu motivo, datas e informes primários no ensaio “Augusto dos Anjos: crítica”, de Ademir & Felipe Ferraz. Trata-se de estudo dividido em três partes, a saber: Motivo; Datas; Crítica.
http://www.openline.com.br/~municipd/cultura1.html é a sétima página eletrônica que faz uma síntese da Literatura Paraibana por meio do ensaio “Na literatura grandes nomes que ajudaram a criar a literaturta brasileira”, acesso à OPENLINE/Literatura Paraibana. Apresenta essa petulância paraibana num quê de arrogância, de seus grandes nomes terem ajudado a criar, também, a Literatura Brasileira, começando por Augusto dos Anjos, emérito poeta local que dispensa adjetivos.
http://www.altavista.digital.com/cgibin/quer…q&kl=augusto + dos + anjos & search=Search, trata-se da oitava página eletrônica que se encontra em dados estatísticos o Jornal de Poesia — Augusto dos Anjos (Obra Completa) e/ou ainda por meio doutro servidor eletrônico e página eletrônica também similar [URL: http://www.e-net.com.br/seges/augus.html%5D com 14366 entradas para anjos; augusto: 16 páginas eletrônicas do portal eletrônico ALTAVISTA: Simple Query Augusto dos Anjos on line que apresento na divisão II seguinte.
http://ink.Yahoo.com/bin/query?p=augusto+dos+anjos&he=0&hs=0 é um portal eletrônico porque apresenta um conjunto de 339 páginas eletrônicas. Mas, sendo mesmo essa a nona página eletrônica, também, encontrei nela dados estatísticos, embora em menor quantidade e com menos intensidade, comparados aos anteriores, apenas 339 entradas de pesquisas para Augusto dos Anjos, de 1994 a 1998, coincidindo este número, também, com o de páginas existentes neste mesmo período. Com finalidade didática, pedagógica e metodológica reuno nesse portal 19 páginas eletrônicas que sintetizam a recepção crítica e virtual das poesias de Augusto dos Anjos.
I – No portal do YAHOO! Search Result on line às pesquisas nas poesias de Augusto dos Anjos (1.“Versos a um Cão”, 2.“Mãos”, 3.“Minha Finalidade”, 4.“O Lamento das Coisas”, 5.“Idealização da Humanidade Futura”, 6.“A Aeronave”, 7.“Ave Dolorosa”, 8.“Versos Íntimos”, 9.“A Louca”, 10.“O Deus Verme”, 11.“Abandonada”, 12. “O Deus Verme”, 13.“Canto de Onipotência”, 14. “A um Carneiro Morto”, 15.“A Fome e O Amor”, 16.“Depois da Orgia”, 17.“O Lázaro da Pátria”, 18.“Ao Luar”, 19.“Mater”) encontram-se as páginas eletrônicas, a saber:
1. http://www.e-net.com.br/ seges/augus15.html.
2. http://www.e-net.com.br/seges/augus76.html.
3. http://www.e-net.com.br/ seges/augus65.html.
4. http://www.e-net.com.br/ seges/augus57.html.
5. http://www.e-net.com.br/seges/ augus13.html.
6. http://www.e-net.com.br/seges/augus131.html.
7. http://www.e-net.com.br/seges/augus140.html.
8. http://elogica.users./beatriz/leitura74.html.
9. http://www.e-net.com.br/seges/augus122.html.
10. http://users.sti.com.br/sepia/augusto.htm.
11. http://www.e-net.com.br/seges/augus103.html.
12. http://www.e-net.com.br/seges/augus16.html.
13. http://www.e-net.com.br/seges/augus73.html.
14. http://www.e-net.com.br/seges/augus29.html.
15. http://www.e-net.com.br/seges/augus54.html.
16. http://www.e-net.com.br/seges/augus99.html.
17. http://www.e-net.com.br/seges/augus12.html.
18. http://www.e-net.com.br/seges/augus71.html.
19. http://www.e-net.com.br/seges/augus55.html.
II – No portal eletrônico ALTAVISTA: Simple Query Augusto dos Anjos on line às pesquisas nas poesias do poeta do EU (1.“Ao Luar”, 2.“Tristezas de um Quarto-Minguante”, 3.“O Fim das Coisas”, 4.“Vozes de um Túmulo”, 5. “A Aeronave”, 6. “A Árvore da Serra”, 7. “A Esmola de Dulce”, 8. “A Esperança”, 9. “A Dança da Psiquê”, 10. “A Floresta”, 11. “A Fome e O Amor”, 12. “Soneto”, 13. “Soneto”, 14.“Debaixo do Tamarindo”, 15. “A um Carneiro Morto”, 16. “Ricordanza della mia Gioventú”) encontram-se, também, essas páginas eletrônicas que podem ser visitadas com o acesso por meio virtual na recepção da matriz http://www.altavista.digital.com/cgibin/quer…q&kl=augusto:
1. URL: http://www.e-net.com.br/seges/augus.71.html
“O humor expressionista do poeta da morbidez”, de Bernardo Carvalho, artigo denso, publicado na seção Livros do jornal Folha de S. Paulo, de Domingo, 11 de dezembro de 1994.
“Augusto dos Anjos e a crítica literária”, de Marinalva Freire da Silva, ensaio brilhante publicado no Caderno B do jornal O Momento, de João Pessoa, 01 de janeiro de 1986, página 5, e que se respalda na crítica augustiana consagrada, que vai de Gilberto Freyre a Antônio Houaiss.

Considerações finais
Minhas considerações finais ainda vão como um dos maiores reconhecimentos de crítica e estética à realização desta Mesa de bate-papo “Augusto dos Anjos, Cem anos de Encantamento” a 29/4/2014, bem como do pioneiro I CONALI – Congresso Nacional de Literatura – Eu: cem anos de poesia, de 3 a 6-6-2012, Campus I, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa-PB, porque trouxe à luz da comunidade científica participante uma convicção aos pesquisadores da poética de Augusto dos Anjos, a saber: a consulta imprescindível à fortuna crítica atualizada e apresentada na programação desse evento relevante e merecedor de citações, com destaque às pesquisas desenvolvidas por Socorro Aragão, Neide Santos, Ana Isabel, Marinalva Freire e 1200 pesquisadores assinando 400 pesquisas apresentadas.
Então, posso concluir que sua mentalidade pura em seus universos transgressores são construídos sob uma base semiótica, e vão transgredindo sempre num clima quase eterno ou incontido da poética. Arquitetura semiótica esta que se prolonga pelos trezentos e sessenta e cinco dias de cada ano dessa poética da transgressão do personagem do Eu, o poeta Augusto dos Anjos. Razão pela qual registra ele tanto na sua prosa quanto na poesia que desde épocas remotas até estes dias imperam a malandragem, o jeitinho brasileiro de nunca se ter vergonha na “pátria de bonzos”, portanto, sempre sem vergonha e desonesto no caráter. Deveras, pois tudo no país do futebol, carnaval e cachaça é acompanhado por um “jogo de cintura” aqui, uma “forçada de barra” ali, pra em seguida se temperar com forró de plástico, pagodes monumentais, “fundo de quintal” e até gafieira no que se deveria portar por demais austero.
Então, surge a questão fundamental: como realizar uma pesquisa de tese original e pura em meio a tanta podridão intelectual humana, decomposição intelectual em pseudos mestres, verdadeiros desviadores do erário público, principalmente quando se aboletam nos cargos altos e de confiança do Estado, propriedade exclusiva da cidadania democrática, MEC, CAPES, CNPq, Fapesp, Cebrap, IFES/UFMS, IES e Administrativos: coordenadores, chefe, diretores, pró-reitores, vice-reitores, reitores e ministro da educação? Ministro este que defende um “cavalo tísico” de batalha em nossa “civilização brasileira” atacando mortalmente os excluídos à educação superior e aumentando “Dados da segregação” quando vem a público teses suas como: “MEC condena cota para negros” e “Diversidade na universidade” , endividando ainda mais a nação com empréstimos aviltantes na ordem de US$ 9 milhões, a saber: US$ 5 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e US$ 4 milhões que de imediato exigiu tal contrapartida do nosso Tesouro Nacional, fragilizando assim ainda mais, também, a nossa Soberania Nacional?
Trata-se de evitar prorrogação à discussão em torno da educação, tema que também é desenvolvido por Augusto dos Anjos em sua poética numa forma direta porque a decomposição da matéria, do verme, o “Evangelho da podridão” de que nos fala refere-se principalmente à corrupção do Brasil.
Mas o que cabe ao erário público? Este só recebe em troca uma traição à coisa pública, por meio duma prática que se instaura sob os auspícios duma filosofia cruel e nefasta à cidadania democrática que o vulgo assim expressa: “quem tá de dentro não sai e quem tá de fora não entra”. Razão pela qual, entre tantos episódios degradantes como este, certo Chefe Maior de Estado da França ter afirmado, quando aqui chegou, que “este não é um país sério”. Nem é à-toa, também, que Aristóteles tenha afirmado outrora, na Grécia Antiga, que “Abaixo da Lua só existe corrupção”.
Enfim, será que tudo no Brasil naufraga se há ignorância da transgressão? Inclusive da transgressão poética, que jamais poderia deixar de ser diferente da cultura, da sociologia, da psicologia e da antropologia do corpo social de nossa civilização brasileira: o povo brasileiro expresso em verso e prosa, também, na mentalidade e concepção dos preparativos à comemoração desse Centenário da morte de Augusto dos Anjos?

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