Que ninguem doma um coração de poeta!

16/11/2009 – Eu, Estranho Personagem

Resumo

O ensaio breve prova como no soneto “Vencedor” e no EU [1] há um poeta atormentado em sua própria euforia estética como se fosse um estranho Messias vindo à tona do inesperado e do inevitável pra reivindicar um novo Cosmos por meio duma nova poética. Daí surge o seu desejo imperioso e decidido à instauração de sua nova Roma fundada na vanguarda duma excêntrica civilização brasileira. Gente estranha essa permeando sua estética da originalidade que assombrará o mundo por meio dum novo estatuto às palavras feias, fedorentas,  esdrúxulas, vândalas e  iconoclastas de seu repertório indomável. E este por sua vez brotando em turbilhões do inesperado e imprevisível pra arrombar as portas intransponíveis do conteúdo e forma inúteis à poética do Cosmos de Augusto dos Anjos à luz da Engenharia da Informação com 10.064.090 milhões de registros e referências crítico-literárias em acessos só no Google pra Wikipédia, a enciclopédia livre na net.

A boca da botija: Que ninguem doma um coração de poeta! 

Um dos maiores biógrafos de Augusto dos Anjos é outro conterrâneo seu, o médico paraibano Humberto Nóbrega, trazendo á tona A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos [2], uma das críticas mais relevantes às contribuições à investigação científica sobre o EU por meio de sua obra de longo fôlego [3], Augusto dos Anjos e sua época, publicada em 1962, pela editora da primeira Universidade Federal da Paraíba, na qual o biógrafo foi também Reitor.

Que ninguem doma um coração de poeta![4] é o último verso dum ensaio sobre o soneto “Vencedor” e o EU que constata um Augusto dos Anjos convicto em instaurar uma nova civilização brasileira. Gente estranha esta que assombrará o mundo por meio desse “Vandalismo” na estética de EU com seu novo estatuto à palavra feia e federonta arrombando as portas à nova poética do Cosmos. Assim, Augusto dos Anjos reivindica um novo Cosmos a Deus, pois está inconformado e quer salvar a humanidade, encarnando também um novo Cristo por acreditar piamente que ele não morreu, pois em carne, osso e sangue vive na Serra da Borborema, lá na Velha Paraíba onde nasceu.

A poética[5] da transgressão no EU de Augusto dos Anjos, assentada em bases sólidas do verossímil e da unidade clássica do filósofo Aristóteles, necessita de risco, fazer o que tem de ser feito, no seu projeto fracassado dum novo Cosmos. A poética EU ressuscita à vida duma nova Roma instaurada noutra nova civilização brasileira frente ao velho mundo.

Trata-se duma poética da transgressão que se dá à janela livre da globalização ao unir os povos numa só nação chamada Brasil, por estar à frente de seu tempo e na vanguarda cultural da unidade das nações também à luz da pluralidade[6] do Contra o Método, de Paul Feyerabend.

Nem é à toa que nesse ensaio breve A poética carnavalizada de augusto dos anjos[7] o presidente da Fucirla/SP, doutor em Comunicação e Semiótica/PUC-SP, prof. Montgômery Vasconcelos, venha provar como em todo o EU e no soneto “Vencedor” há um autor convicto em instaurar uma nova civilização brasileira que assombrará o mundo por meio dum novo estatuto à palavra feia e fedorenta como a cloaca que alimenta à hiena, animal desvairado que ainda assim sorrir. Palavra esdrúxula e excêntrica essa que arromba as portas da unidade clássica à literatura universal por meio de sua poética da pluralidade, da transgressão, ordinária e inclassificável. 

Vencedor

Toma as espadas rutilas, guerreiro,

E á  rutilancia das espadas, toma

A adaga de aço, o gladio de aço, e doma

Meu coração — extranho carniceiro!

Não pódes?! Chama então presto o primeiro

E o mais possante gládiador de Roma.

E qual mais prompto, e qual mais presto assoma,

Nenhum poude domar o prisioneiro.

Meu coração triumphava nas arenas.

Veio depois um domador de hyenas

E outro mais, e, por fim, veio um athleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…

E não poude domal-o emfim ninguem,

Que ninguem doma um coração de poeta!

Pau d’Arco—1902

[ANJOS, Augusto dos. “Vencedor” in EU. Rio, s.c.p., 1912, p.102.] 

Augusto dos Anjos na tenra infância já era poeta indomável de composição curiosa nas cercanias do Engenho Pau D’Arco, propriedade de sua Família lá na Velha Paraíba. Nasce já poeta sendo doutor formado na mesma Escola de Tobias Barreto, a Faculdade de Direito em Recife-PE. Augusto dos Anjos já em sua originalidade infanto-juvenil lia tudo que havia na Biblioteca da Família, abastecida pelo pai Aprígio dos Anjos por meio de suas encomendas importadas da Europa e demais Continentes. Vai ver que daí surge a influência confessa do autor de EU pela poética de Shakespeare e Poe.

A festa da carne

A festa da carne é resultado da Recepção e transgressão: o público de Augusto dos Anjos[8], outra pesquisa científica desenvolvida por meio de Engenharia da Informação na mídia digital, virtual, impressa e na net. Daí que esta net, por ser tecnológica e cibernética, vem dando acesso a 10.064.090 milhões de registros e referências crítico-literárias só no Google, dentre outros levantados pelo pesquisador e autor da página eletrônica sob a URL http://montgomery1953.wordpresss.com

Ressalte-se que tanto na Cibernética (EPSTEIN, 1986) quanto por meio dessas suas técnicas de Cibernética e comunicação (EPSTEIN et alli, 1973) a poesia e a prosa do poeta paraibano apresentam a face negra de Brasil, o signo da corrupção, divulgando críticas como as que se encontram em A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos.

A ideia de conjunto da obra angelina o EU é essa festa da carne, entre outras poéticas da intersemiose na semiótica da literatura e nas artes, que são desenvolvidas também na Fundação Científica Reis de Leão e das Astúrias, por meio da URL http://fucirla.spaces.live.com sediada em São Paulo-SP.

Trata-se de pesquisa científica de Montgomery Vasconcelos que divulga críticas sobre A poética carnavalizada de augusto dos anjos, a festa da carne, entre outras poéticas da intersemiose na semiótica da literatura e nas artes.

A poética carnavalizada de augusto dos anjos é a festa da carne, o carnaval, apresentando-se com a mesma sinonímia triádica da sátira menipéia, que Bakhtin, em seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, resgata lá nas manifestações carnavalescas da antiguidade grega por meio de Menipo de Gadare, seu criador que lhe dá nome.

Nem é à toa que o poeta de EU, Augusto dos Anjos, explore em sua poética expressões tétricas como “Evangelho da podridão”, “verme”, “matéria em decomposição”, “cloaca”, “escarro”, “miseria”, “grito”, “horrenda”, “alegre” e “sangue”. Todavia tudo junto e misturado às palavras alegres da literatura carnavalizada.

Contudo, ainda, é como se criasse assim nessa poética uma metalinguagem cinematográfica sobre o corpo devorado por seus próprios vermes. E o faz por meio duma escritura em plena festa da carne, o carnaval: espetáculo universal de sua poética da transgressão descentralizada num mesmo palco, numa mesma cena do cômico, trágico e dramático, reverberando tudo junto e misturado, à luz da Engenharia da Informação com 10.064.090 milhões de registros e referências crítico-literárias em acessos só no Google à Wikipédia, a enciclopédia livre, pra arrombar as portas dum novo Cosmos seu no assombro fatal da terra.

Enfim, a sátira menipéia manifesta-se pois também nessa poética aristotélica de EU. Mas ao mesmo tempo é uma poética da transgressão, uma autêntica e original “coroação destronamento”[9]. Trata-se de polifonia, dialogismo e discurso social confluindo na categoria explorada por Bakhtin em sua tríade filológica: “primeira peculiaridade”, “segunda peculiaridade” e “terceira peculiaridade”, equidistantes à tríade semiótica de Peirce: primeiridade, secundidade, terceiridade, que se vão corresponder também com a tríade de Lacan: real, simbólico, imaginário.

A poética EU do maior poeta paraibano do século XX, Augusto dos Anjos, é o grito desesperado pra salvar a humanidade por meio de seu projeto estético, ideológico e biológico fracassado. Projeto triádico este  consistindo na promessa de ressurreição, tal como sucedeu com Jesus Cristo vencendo a morte da carne, alma e espírito. Enquanto a de Augusto dos Anjos vencendo a morte da estética e a instaurando numa cena inaugural doutra nova e gigantesca civilização brasileira que assombrará o mundo.

Mas a carne é que é humana! A alma è divina. (…)

E vem-me com um despreso por tudo isto

Uma vontade absurda de ser Christo

Para sacrificar-me pelos homens!

Soberano desejo! Soberana

Ambição de construir para o homem uma

Região, onde não cuspa língua alguma

O oleo rançoso da saliva humana! (…)

Subito, arrebentando a horrenda calma,

Grito, e se grito é para que meu grito

Seja a revelação deste Infinito

Que eu trago encarcerado na minh’alma!

Pau d’Arco,-4-5-1907.

[ANJOS, Augusto dos. “Gemidos de Arte” in EU. Rio, s.c.p., 1912, pp.79-85.] 

O poeta Augusto dos Anjos é o Corvo da originalidade na poética de língua portuguesa à luz de Poe. Mesmo em seu passeio abre a cena inaugural dum Cosmos novo trancado a 7 chaves e pintando o 7 no mistério de sua alma de poeta Augusto dos Anjos, pois também é o Hamlet da originalidade na poética de língua portuguesa à luz de Shakespeare. Nem é à toa que Augusto dos Anjos atira muito mais ao longe que ambas influências poéticas suas. Note-se que ao invés de condenar a humanidade em sentença poética shakespeareana, tal qual a profecia no Apocalipse de João, constata a destruição da terra ressuscitada num Cosmos novo.

Todo o destino negro do planeta,

Onde minhas moleculas soffriam. (…)

E eu — coetaneo do horrendo cataclysmo —

Era puxado para aquelle abysmo

No rodomoinho universal das cousas!

[ANJOS, Augusto dos. “Noite de um Visionario” in EU. Rio, s.c.p., 1912, pp. 97-98.]

É mais do que justo surgir daí em relâmpagos e trovoadas sua epifania cristã abrindo, rasgando e arrombando a cena inaugural desse Cosmos novo instaurado pelo seu Jesus Cristo em carne, sangue e osso na Serra da Borborema. Dar-se-lhe assim um novo estatuto à originalidade de sua poética da podridão como novo ofício e mister sagrado à fundação duma nova Roma que assombrará o mundo a partir de seu berço natal, lá na Velha Paraíba, também ninho e gênese da poética EU.

Não! Jesus não morreu! Vive na serra

Da Borborema, no ar de minha terra,

Na molecula e no atomo… Resume

A espiritualidade da materia

E elle è que embala o corpo da miseria

E faz da cloaca uma urna de perfume.

[ANJOS, Augusto dos. “Poema Negro” in EU. Rio, s.c.p., 1912, p.111.]

Considerações finais

Se o artista na pintura do quadro Banho Turco faz a reprodução da carne o poeta Augusto dos Anjos propaga sua apologia da carne, a partir de EU e do soneto “Vencedor”, conforme constata o ensaio crítico Que ninguem doma um coração de poeta! [10]

Augusto dos Anjos, na sua poética da transgressão, instaura a festa da carne, a subversão, a constatação da miséria da natureza humana: espírito e corpo, da matéria; as virtudes sociais humanas, a moral cristã, a política, a cultura, a economia, a saúde, a sociologia, a antropologia e a ética, são questionadas, à luz das teorias científicas vigentes na época desse poeta à frente de seu tempo.

É como se Augusto dos Anjos abrisse a cena inaugural de sua poética do Cosmos por meio de estranha epifania com o propósito imperioso de salvar a humanidade numa nova Roma instaurada noutra civilização brasileira que assombrará o mundo.

Notas

1. ANJOS, Augusto dos [1884-1914]. EU. 1ª ed., custeada pelo poeta e seu irmão Odilon dos Anjos, Rio de Janeiro: [s.c.p.] 1912, pp.5-131.

2. VASCONCELOS, Montgomery José de. A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos. 1ª ed., São Paulo: Annablume, Selo Universidade 28, 1996, pp. 9-280.

3. NÓBREGA, Humberto. Augusto dos Anjos e sua época. João Pessoa: Edição da Universidade da Paraíba, 1962, pp. 7-334.

4. https://montgomery1953.wordpress.com

5. ARISTÓTELES [384-322 a.C.]. Poética. Tradução Eudoro de Souza, texto bilíngüe grego-português, São Paulo: Ars Poética, 1992, pp. 7-151.

6. FEYERABEND, Paul [1924-1994]. Contra o método: edição revista. 1ª ed., New Left Books, 1975; Ed. rev. Verso, 1988; Ed. rev., Col. Ciência, Tradução de Miguel Serras Pereira do original Against Method, Lisboa: Relógio D’água, 1993, pp. 7-364.

7. http://montgomeryvasconcelos.zip.net

8. VASCONCELOS, Montgomery José de. “1.2 RECEPÇÃO VIRTUAL” In: Recepção e transgressão: o público de Augusto dos Anjos. São Paulo: Tese de doutorado em Comunicação e Semiótica/PUC-SP, 2002, pp.98-105.

9. BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981, pp.87-155.

10. http://fucirla.spaces.live.com

Prof. Dr. Montgomery Vasconcelos

[Presidente da Fucirla/SP]

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